quiabo recheado com camarão semicozido

Fui até o Arpoador encontrar um grupo de amigos de São Paulo. Como bons paulistanos – com a melhor das intenções – o grupo já tinha feito até reserva para jantarmos no restaurante da chef Roberta Sudbrack. Como não sou frequentadora de restaurantes especializadas em releituras, achei boa a ideia de experimentar um bom prato no Jardim Botânico, mesmo sendo eu uma detestadora de programas agendados com antecedência, principalmente no Rio, onde graças ao Cristo Redentor, da praia podemos partir para um chope no Bracarense com um grupo de turistas da Dinamarca que conhecemos na praia.

Mas, para não desrespeitar o cronograma montado pelo grupo, esqueci o Bracarense e os turistas dinamarqueses. Parti para o restaurante da Roberta com paulistanos.

Chegamos ao local no horário marcado. Achei a iluminação do ambiente pouco acolhedora. De repente, dentro do contexto e do conceito, aquela iluminação representava alguma coisa que eu desconhecia.

Entramos e fomos para o andar de cima. Não me lembro mais qual foi o vinho indicado para acompanhar a primeira “experiência”. Era bom e muito suave. Junto com ele, entradinhas pitorescas. Pão de queijo com outro nome. Baguete feita com farinha do Amapá e outras coisas assim, meio circenses.

Acho que você – caro leitor – deve ir até lá para conferir. Afinal, Roberta não deve ter estrelinhas em guias por acaso. Já deve ter feito muito robalo cozido com tomate e jambu para conquistar seu espaço no mundo da culinária cool contemporânea. Me lembro do prato principal. Quiabo recheado com camarão semicozido.

_ Não gosto, não como. Posso substituir por alguma outra coisa. Não é aqui que tem um frango com polenta, receita da avó da Roberta?, perguntei para o garçom.

– Sim. Estarei verificando com o chef. Só um minuto, disse o garçom, no gerúndio.

Pensei: Vai levar tempo! Nesse tipo de restaurante, questionar o prato principal é quase uma ofensa. Levantei para fumar um cigarro e pedi para que uma das minhas amigas escolhesse meu prato.

Aquela altura do campeonato, o que eu queria era ver meus amigos satisfeitos e sair dali.

Eu combino tanto com esse tipo de programa que resolvi tomar uma cerveja para que o garçom percebesse que eu não estava lá muito preocupada em harmonizar nada. O restaurante estava cheio de gente maquiada e perfumada. Parecia uma recepção de casamento. Caipiras com dinheiro que chegam aqui torcendo para encontrar um ator da Globo.

Soube que a elite carioca venera o cachorro quente da Roberta. Salsicha húngara levemente picante, com queijo guyere ralado, numa mini baguete! Para acompanhar, quenelle de mostarda importada com sementes! Super gourmetizado. O cachorro quente chama-se Subdog e desde o ano passado, começou a ser vendido em São Paulo.

A cozinheira, que mantém no Rio de Janeiro um premiado restaurante com seu nome e foi eleita no ano passado a melhor chef mulher da América Latina pela revista britânica The Restaurant, também propõe uma versão vegetariana. Nela, a salsicha dá lugar a cenoura assada, que vem acompanhada por queijo fontina, caponata de berinjela e harissa, um molho marroquino levemente picante.

Parabéns, Roberta! Parabéns! Sucesso! Público garantido.

Bom, desci para fumar um cigarro na calçada e encontrei um outro fumante.

Perguntei:

_ É a sua primeira vez aqui?

_ Esse é meu quarto cigarro.

_ Não, disse eu, rindo. Primeira vez aqui, no restaurante?

_ Sim, é minha primeira vez aqui.

_ O papo lá na sua mesa está tão ruim assim?

_ Suportável. Previsível. Estão conversando sobre vinhos. Sabe, eu prefiro restaurantes mais tradicionais, como o Café Lamas, conhece?

_ Muito. Instituição da boemia carioca, fundado na segunda metade do século XIX. Adoro aquele chope e o tradicional filé à francesa. É uma experiência incrível! Posso chamar um táxi?

_ Deve! respondeu ele, aliviado. Nós vamos sair à francesa?

_ É óbvio, disse eu, aliviada por ter descido para fumar com a minha bolsa. Ah. Não nos apresentamos. Meu nome é Silvia. E o seu? Renato.

No táxi:

_ Qual o destino, senhora? perguntou o taxista.

_ Rua Marquês de Abrantes, 18.

2 comentários sobre “quiabo recheado com camarão semicozido”

  1. Silvia, esse texto é a minha cara… Sinto falta do seu blog no Globo… Muita pena que o politicamente correto acabou com ele…

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