programa de trainee

 

Eu já fui trainee. Pra quem não sabe, o trainee é um estagiário melhorado, apesar de quase sempre a maioria se achar bem mais que isso. A empresa aposta no trainee. E, ele acredita. Cursos, treinamentos e estágio em diversas áreas da empresa, para a úlcera de quem os recebe.

O trainee passa por todas as áreas da empresa. Ouve um monte de besteiras e fala uma porção de outras. Faz relatórios e se reporta aos diretores da empresa. Basicamente, presta contas do que está aprendendo, sempre com uma pitada de inteligência acima da média. Um arzinho de #standford.

Durante meu período na área comercial, acompanhei uma das autoridades, um gerente de vendas. Eu passava o dia inteiro com aquele sujeito. Participava de reuniões, fazia anotações e tentava me manter calada. Desde o início, percebi que minha presença o perturbava. Normal. Era óbvio que me carregar pra lá e pra cá, sabendo que no final do período eu faria um relatório sobre o que vi e ouvi, era no mínimo desconfortável para ele e constrangedor para mim.

Num fim de tarde, depois de uma reunião, o cara me ofereceu uma carona. Entramos no carro e ele me pareceu estabanado, meio afobado. Continuei na minha, apesar de saber que homens, principalmente os casados, quando ficam assim, estão ‘perturbardos’. No meio do caminho, ele me convidou pra tomar um chope. O chope era fundamental. Era o início do papo informal, talvez até uma chance de quebrar aquele clima tenso.

Depois de uns três ou quatro chopes, ele começou a fazer perguntas e falar de coisas banais. Tirou do bolso o enfadonho discurso do passado de vida difícil. ‘Comecei do zero, meus pais nunca foram ricos, sou um cara ambicioso, falo o que as promotoras de vendas precisam ouvir, respeito a história de vida de cada uma delas…’

A essa altura eu já tinha decidido manter o ritmo do chope. Porque quando o filme é ruim, você já ‘mata’ o fim, pelo começo. E eu não poderia – jamais – ser descortês.

Depois, bingo! Partiu para o papo do casamento falido, da preocupação com os filhos e da vida monótona que levava com a mulher. ‘Gostaria de me separar mas não quero ficar longe das crianças e não tenho grana para sustentar dois lares.’.  Zero comovida, naquele momento, pensei: Já sei aonde esse merda quer chegar e vou deixar rolar.

Eu não estava me sentindo atraída pelo executivo. Mas, como qualquer mulher naturalmente desequilibrada, senti um prazer sórdido em ver aquele cara [de calças de sarja] tentando me convencer de que ele merecia ao menos um oral.

Conquista é uma arte que toda mulher quer dominar, mesmo que no braço. Eu nunca fui boa nisso. Sou péssima na arte da sedução consciente. Ali, só a sensação de perturbar o indivíduo era maravilhosa. Deve ter sido uma forma de colocar pra fora toda a raiva que papo de vendedor sempre me causou. Entramos no carro. O gerente me deixou em casa e ganhou um french kiss de presente.

No dia seguinte, na minha mesa, flores do campo [um buquê daqueles bem grandes, cheio de folhas de samambaia] e um CD do Kenny G de presente. Eu não merecia um CD do Kenny G. Muito menos aquele buquê gigantesco. Não mesmo. Era melhor se ele estivesse escolhido um da Alcione.

Tudo que eu queria era engolir uma granada. Enterrei o caso e nada consta no meu currículo. Foi apenas uma péssima experiência sexo-corporativa. Comecei a rezar para que chegasse logo a hora de ir perturbar o pessoal da Contabilidade ou da área de Desenvolvimento de Embalagens.

ps: Jamais enviem buquês com folhas de samambaia para ninguém.

ps2: Isso é uma crônica.

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