Pay Back Time

Por José Roberto Corrales

Outro dia assisti a um video interessantíssimo sobre uma linha de produção de veículos da Mercedes Benz.

Como sou um amante da tecnologia, fiquei alucinado ao ver a linha de montagem toda operada por robôs, em velocidade e precisão incrível.

Somente no final do processo pude ver alguns funcionários humanos fazendo um polimento ou pequenos acertos.

Incrível. Onde antes haviam mil ou dois mil trabalhadores, o mesmo trabalho foi feito por poderosas e precisas máquinas que trabalham dia e noite sem cansar nem adoecer, sem reclamar, sem férias nem feriados, sem licença-maternidade ou paternidade, sem décimo terceiro, sem bônus, sindicatos, enfim, o sonho de consumo de cem em cem acionistas.

A produtividade foi para o espaço e as não-conformidades são medidas agora em nano índices.

Maximização do ROI em ritmo alucinado.

Se Henry Ford pudesse ler isto, certamente tremeria no túmulo.

O criador da mecanização do trabalho, da produção em massa, da padronização do maquinário, dos equipamentos e da política de metas, tinha o forte conceito de que o pagamento de um salário substancial para os trabalhadores aumentaria seu poder de compra, criando um movimento econômico cíclico.

E é justamente esse o problema a ser resolvido.

Quem vai comprar os Mercedes super high techs? Os dois mil empregados que foram substituídos pelas máquinas não.

Os mais otimistas dirão que não foram substituídos; apenas migraram de atividade: de operário para programadores ou desenvolvedores de robôs.

Nada mais falacioso. Sabemos que a capacitação de pessoas são medidas em termos de geração, digamos em vinte anos, porém já em 1965 Gordon E. Moore fez sua profecia, na qual o número de transistores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada período de 18 meses. Essa profecia tornou-se realidade e acabou ganhando o nome de Lei de Moore.

Simplesmente não há como fazer este “catch up” e vejam que aqui falo somente em transistors, robôs e programação de computadores.

Kurzweil, um dos mais expressivos pensadores sobre o futuro da tecnologia, previu em seu ensaio de 2001 “A Teoria das Mudanças Aceleradas” que mudanças de paradigma, como têm sido e continuarão a se tornar cada vez mais comum, levando a “mudanças tecnológicas tão rápidas e profundas que representa uma ruptura no tecido da história humana”. Ele acredita que a teoria das mudanças aceleradas implica que uma singularidade tecnológica irá ocorrer na primeira metade do século 21, em 2045, quando a Inteligência Artificial superará a capacidade humana em todos os aspectos.

E quais são as propostas, não ideológicas tampouco maniqueístas, para salvar a humanidade desta profecia autorrealizável da projeção lógica da evolução das relações trabalhistas?

Nomes como Carlos Slim, Bill Gates, Zuckerberg, Jeremy Howard, Elon Musk entre outros, há muito percebem a perspectiva sombria da sorte humana e convergem para a ideia da renda basica.

Defendida em diferentes locais do espectro político, da direta à esquerda, a renda básica tem sido vista cada vez mais como a solução para vários problemas contemporâneos – mas chegaremos lá depois. A renda básica é, como o próprio nome sugere, um valor transferido às pessoas mensal ou anualmente.

Os requisitos básicos passam por atender a todas as necessidades básicas como gastos com moradia, alimentação, saúde, educação; deve ser universal – aplicada para ricos e pobres além não estabelecer condição alguma para a concessão desse benefício vitalício. Ah, e importante: paga pelo estado.

A renda básica é controversa, mas delineada por pessoas de diversas ideologias, da direita mais conservadora à esquerda mais radical. Cada um com as suas razões, é claro. Quem está mais à direita, defende que a renda básica concede maior liberdade aos indivíduos e fortalece o mercado, por fornecer aos consumidores os meios ($) para comprar mais produtos. Quem está mais à esquerda do espectro político, argumenta que a renda básica é uma maneira de acabar com a pobreza e diminuir as desigualdades no mundo, principalmente de acesso aos direitos básicos, e de introduzir as camadas mais pobres à educação e a profissões mais qualificadas.

Mark Zuckerberg, em seu discurso na Universidade de Harvard, em 25 de maio de 2017, disse: “Chegou a hora de nossa geração definir um novo contrato social. Deveríamos explorar ideias como a da renda básica universal para garantir que todos tenham segurança para testar novas ideias”.

O criador do Facebook teve suas razões para defender a renda mínima: no Vale do Silício, local de desenvolvimento de tecnologias de ponta na Califórnia e onde estão as principais mentes por trás das inovações no mundo, há uma grande preocupação com a escassez de empregos por conta da tecnologia. O movimento de mecanização de algumas atividades humanas é um movimento antigo, presente desde a Revolução Industrial no século XIX, e que tende a aumentar.

De acordo com um estudo feito em janeiro 2016 pela Universidade de Oxford, 37% dos trabalhos de força humana está sob o risco de desaparecer nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Há um indicativo de 45% das atividades remuneradas atualmente pode ser automatizada no futuro com tecnologias já desenvolvidas, avaliação feita pela empresa de consultoria McKinsey. No rol de trabalhos, estaria o de médicos, CEOs e executivos de finanças, por exemplo.

Com essa realidade em mente, a manutenção de uma renda básica não deixaria as pessoas desamparadas caso viessem a perder seus empregos, dando-lhes o mínimo necessário para sobreviver e até uma oportunidade de empreender.

A iniciativa governamental mais recente foi na Finlândia, onde há um projeto piloto de implementar a renda básica no início de 2017, transferindo 800 euros mensalmente aos finlandeses participantes. Serão 20 bilhões de euros destinados à renda básica em dois anos de teste. Em 2015, 65% da população na Finlândia apoiava a renda mínima de mil euros ao mês.

E então, qual a sua opinião sobre isso?

6 comentários sobre “Pay Back Time”

  1. Silvia Pilz,
    Obrigado por compartilhar um texto tão instigante e parabéns por propor a reflexão de todos nós a respeito.
    É exatamente isso que farei.
    Abraços.

  2. Na minha opinião a conta não fecha. Tem gente demais no mundo. A renda básica começaria com um calor de 1000 baseada na capacidade de Distribuição do governo, que por sua vez está diretamente ligada a capacidade de arrecadação. A população ganha menos, co ao me menos e o governo arrecada menos. Sem falar na informalidade que vai ser criada e ura ninar ainda mais a arrecadação.
    A taxa de crescimento populacional continua a aumentar e a demanda por renda básica também.
    A conclusão é que tem gente demais. Sem um controle populacional ou uma drástica redução no contingente, a humanidade não vai longe, mesmo com a renda básica.
    O futuro e negro!

  3. Como ideia geral, a renda mínima é um projeto solidário, mas, o cenário, só pode mudar se houver educação e estrutura, caso contrário, será mais um Bolsa Família. O sujeito come, dorme e aguarda o próximo mês. Uma iniciativa que promove cada vez mais, a acomodação.

  4. A ideia de renda básica universal é a maior falácia que se pode imaginar. Se existe uma conta que não fechará nunca é essa. Todo mundo fica seduzido por essa ideia mas ninguém se preocupa em pensar como será pago. Governos só podem transferir essa renda via impostos, que são pagos por empresas e cidadãos. De onde vai sair esse dinheiro se a teoria indica cada vez menos pagadores de impostos ? Pelo amor de Deus… pensem, pensem pensem !!!

  5. Um tanto quanto estranha a ideia.
    O fomento ao trabalho, renda, riqueza é muito mais necessário que pensar em dar “renda” simplesmente, como já comentado acima.
    Os “bilionários” pensam que doar dinheiro sem educar e sem fomentar renda terão sucesso? Acho que não, pois é preciso sustentação, gente consumindo os Mercedes, gente trabalhando para ter renda e poder viver dignamente.
    Há muito o que se pensar….

  6. Antes de emitir qualquer opinião, fico grato por ter a oportunidade de ler um texto tão interessante.
    Dito isto, penso a renda básica proposta pela redistribuição do Estado da renda anteriormente “arrecadada” via impostos criaria um problema que foi apontado nos comentários, qual seja, pessoas demais e riqueza de menos.
    Penso que a tecnologia também pode ser parte da solução, ao invés de partilhar a renda de tributos que tal um fundo constituído com parte da renda dos ainda trabalhadores humanos e eventuais colaboradores coletivos que serão aplicados por robôs operados por inteligência artificial que distribuirão em cotas iguais os ganhos adquiridos no mercado financeiro e até com criptomoedas ?
    E você, o que acha ?

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