mea-culpa

Eu sou jornalista e em 2015, eu trabalhava para O Globo.

Assinava um blog chamado Zona de Desconforto e publicava textos polêmicos que tratavam da vida em sociedade e suas contrariedades.

Os textos eram divertidos, sarcásticos, irônicos e_ muitas vezes_ arrogantes ou agressivos. Não cabe aqui dizer qual era a minha intenção.

Um blog com esse título já diz quase tudo. Causar desonforto não é prazeroso. Eu não tinha idéia do quanto.

Quando o texto Preto no Branco foi publicado, eu descobri.

Magoei ou machuquei muita gente. Por que? Porque eu disse que crianças com síndrome de Down nos causavam certa estranheza ou desconforto.

Eu não pensei nos pais e mães de crianças com Down.

Não imaginei e não me importei com o impacto que aquela frase teria para eles. Só pensei no quanto somos dissimulados diante do diferente.

O texto fala de outras coisas que eu não quero citar aqui. Estaria sendo hipócrita.

E isso _ honestamente _ eu não sou.

Eu devo desculpas aos pais e mães que se sentiram mal quando leram aquele texto.

E, depois de três anos remoendo esse assunto e me considerando uma vítima, por ter sido demitida pela publicação de um texto que eu, naquela época, achava que as pessoas não tinham entendido do jeito que eu queria que elas entendessem, descobri que é minha responsabilidade responder por tudo aquilo que eu publico.

Por causa desse texto, eu fui denunciada no Ministério Público Federal. E isso só serviu, na época, para que eu me sentisse ainda mais vitimizada. No papel patético do “Ninguém me entende!”.

Bom, se niguém me entende e as coisas chegaram a tal ponto, o erro foi meu e quem deve tentar_ um dia_ reconquistar essas pessoas sou eu.

Primeiro, as pessoas. Depois, talvez, os leitores.

Por favor, me perdoem. Me ajudem a me livrar desse passado.

Sinceramente,

Silvia Pilz

ps: se você não leu o texto, basta digitar ‘silvia pilz preto no branco’, no Google.

9 comentários sobre “mea-culpa”

  1. Continua não entendendo nada. Só pensou no sofrimento causado aos pais e mães, que são pessoas normais. Nem pensou nas crianças down. O dia em que se tornar menos egoista poderei apresentar algumas dessas crianças para que você perceba que elas têm emoções, discernimento, capacidade de raciocínio e um mundo próprio riquíssimo. E poderei apresentar casais brancos com filhos negros que são crianças amadas e não apenas objetos de ostentação

  2. O julgamento é cruel em qualquer instância! Somos imperfeitos! A grande verdade: a vida segue! Você foi demitida por um texto, e eu já fui demitida por compreender uma situação. (escutei: pessoas boazinhas não servem para esse lugar). E aí? Tem sempre alguém vibrando numa outra faixa! Não dá pra saber o que foi certo ou errado, só dá pra reconhecer e aceitar. Continuo sendo Ana, você, mais do que nunca, continue sendo Pils!

  3. Carissima Silvia. Eu já tive enormes problemas por falar o que penso, e já magoei muitas pessoas. Mas somos seres humanos e erramos. Acredito que você já pagou. Siga em frente.

  4. Silvia,

    Conheço poucos que tem a coragem de assumir e pedir desculpa em público como você fez!

    Parabéns e siga em frente sem olhar para trás, força e continue com seu ótimo trabalho!

  5. O que mais você quer, Nassif?
    Que ela se imole em praça pública?
    Parece que quem continua não entendendo nada é você.

  6. Sílvia, nem fui, nem sou leitora dos seus textos. Fiquei sabendo de você após os textos infelizes que produziu. Tuas palavras parecem sinceras e em assim sendo há muita nobreza. Poderia dizer que são palavras tardias demais, entretanto, esse teu movimento é corajoso demais para qualquer outro tipo de comentário. Antes do movimento de reconciliação com os outros, se reconcilie consigo. As tuas conclusões já são frutos de um longo movimento reflexivo. Reconheça, tenha auto-indulgência e fique em paz. Te parabenizo pelo movimento honesto e grande. Passo a ter curiosidade sobre o que anda escrevendo a nova Silvia.
    Paz e bem.

  7. Silvia, você é maravilhosa. Somos responsáveis por aquilo que dizemos e não por como as pessoas entendem. Não é egoísta, acontece que as pessoas interpretam as nossas falas escritas ou ouvidas segundo o universo delas. E se o nosso universo não for “alargado”, interpretamos as pessoas de forma limitada. Acredite que apenas quem se expõe abertamente pode receber críticas. Críticas são para os fortes. A sociedade é machista, conservadora, moralista e majoritária. Os “estranhos”, os que pensam diferente sempre serão julgados. Desculpe-se, se acha que deve, siga o seu caminho, que é maravilhoso e seja feliz. Sua escrita é imbatível. Eu sou amante de uma boa prosa. Eu te conheci no Linkedin, já te sigo no facebook, hoje mesmo publiquei ‘Doriana’ no meu feed e agora estou escrevendo no seu site. Um beijo na sua maravilhosidade avessa.

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