Estocolmo

As relações humanas se tornaram competitivas, assustadoras e cheias de ciladas. O homem ficou amedrontado e resolveu estabelecer vínculos de afeto com animais não ambiciosos, que se satisfazem com aquilo que lhes é apresentado. Hoje, os cães são vítimas da síndrome de estocolmo, estado psicológico onde a vítima encarcerada desenvolve afeto pelo carcereiro.

Na recepção de um hotel da rede Best Western, numa pacata cidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, me deparei com uma plaquinha que dizia: “por favor, registre aqui, seu animal de estimação”. Ou seja, para que o cachorro pudesse circular pelos corredores do hotel, era preciso que o dono fizesse uma coleira de identificação, com o nome do bicho e o número do quarto. Normal.

Naquele tempo, 2004, eu não imaginava que atualmente, cães seriam rastreados por chips, tomariam florais para síndrome do abandono, frequentariam terapia e fariam mapa astral. Eu acreditava que em algum momento, a relação insana que homem travou com seu melhor amigo fosse tomar outro rumo. Naquela época, não sei porque, eles andavam soltos e só precisavam da coleira com o número do quarto, caso se perdessem por ali.

Funciona como qualquer outro hábito de consumo. Enquanto os cachorros estiverem gerando despesas e movimentando o mercado, eles serão very welcome.

Se você tem um cão, você busca uma relação segura. Na verdade, você anula o cachorro e faz dele uma extensão sua, um rabo que se abana sempre e amor da sua vida.

O bicho é como filho da casa e tem direito a tudo o que quiser, desde que não vire gente. Acredito que isso aconteça porque os bichinhos são mais facilmente adestrados, educados num regime de troca e condicionamento. A submissão do animal conforta seu dono. Todo e qualquer sentimento de liberdade está atrelado ao chefe, que é quem enxerga a escravidão do cachorro como fidelidade absoluta do cão.

‘Ele ama a mamãe e a mamãe ama muito ele’, ouve-se pela rua in baby talking.

Quando um ou outro mostra ou lembra que é cachorro e engole uma galinha, come um rato ou morde alguém, pelo motivo que for, é submetido a “torturinhas” chamadas de castigos ou adestramento, dependendo do grau de violência instintiva do animal e do dono. Minto. Não mais. Se o cachorro lembra que é um Pit Bull e avança num bebê, no meio da rua, o caso é abafado. O dono da doce criatura fica perplexo, por não esperar que o cão pudesse cometer tamanha atrocidade, a vítima se cala, porque hoje, honestamente, eu não como o carente dono do cão, se sente ao perceber que seu anjo pode abocanhar, outro ser humano, tão ingênuo e doce quanto ele. Um dia de luta da Sociedade Protetora dos Animais, que provavelmente prefere acreditar que os bichos estão sendo influenciados pela violência humano.

Talvez eles tenham se acostumado com sua atual realidade e esquecido que são bichos. E é natural que isso aconteça. Há tempos, mesmo castrados e fazendo hidro e terapia, além dos florais, eles são cães. É da natureza deles farejar, cheirar cus e lamber as caras das mamães.

Numa dessas, Mood, cadela de uma amiga minha, comeu uma calopsita, com a qual ela convivia há seis meses, numa boa. Mood simplesmente apareceu na sala com as penas verdes na boca. Sucesso! Crianças aos prantos! Temos, inclusive, fotos da calopsita ao lado da Mood, como se a vida fosse um filme de Walt Disney.

Teu cachorro só te ama incondicionalmente porque ele não tem outra opção. O meu também.

 

2 comentários em “Estocolmo”

  1. É o relacionamento (quase) perfeito.
    Temos tudo o que queremos (ou quase tudo) e retornamos o que nos é conveniente no momento.
    Um cafuné, uma bolinha jogada, uma coceguinha na barriga, um pedaço da nossa comida, deixar dormir conosco.
    E é só. Nada de dramas, de DRs, de entender o ponto de vista do outro, de abrir mão da sua vontade, de emprestar seu carro, visitar a sogra, aturar o tio mala, emprestar sua maquiagem, ter conta conjunta…
    Só não é perfeito porque…. Bom, você sabe o porquê.

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