alguém na vida

_ Em que posso te ajudar?
_ Eu quero ser alguém na vida.
_ Você já é alguém na vida. E, de acordo com os espíritas, você escolheu essa vida, esse corpo e sua família. Ou seja, desconfie de si mesmo.

_ O que eu não tenho são metas e objetivos.  Não tenho grandes ambições e não me sinto deprimido por isso. Simplesmente não acho a vida tão maravilhosa quanto as pessoas que me cercam. Gostaria que você me desse uma receita de venvance [ anfetamina ] e me ensinasse a andar com pressa, como as pessoas de sucesso fazem nos filmes de Hollywood, segurando um copo da Starbucks,  falando com três pessoas ao mesmo tempo e – com fone de ouvido – do telemóvel, que está no bolso.

_ Não há necessidade de falar. Troque mensagens de WhatsApp, faça parte de grupos, publique piadas patéticas e etc. Starbucks é uma excelente ideia. É uma marca consistente, cool, assim como essas cafeteiras que fazem o café na hora, com cápsulas coloridas e tal. Aliás, você pode comprar um vaso redondo e colecionar as cápsulas de café. Colecionar rolhas também é interessante.

_ É simples. A pressa é sinônimo de ocupação, produtividade e sucesso. Os medíocres veneram a correria do dia a dia. Para ser alguém na vida você não deve pensar muito. Tenha dívidas. Faça workshops idiotas. Assista palestras. Comece a tomar ritalina. Desenvolva uma súbita paixão por fotografia, por orquídeas ou torne-se um Sommelier. Tenha uma conta no Linkedin e se faça presente. Tenha followers. Publique livros e mais livros, como se você estivesse sugerindo leituras. A pessoa “lida” é superestimada. Torne-se um Top Voice.

Fora isso, compre tudo em 12 vezes sem juros e tenha mais de um cartão de crédito. É importante que você sinta muito medo do fracasso. Lembre-se disso. O medo do fracasso é a mola propulsora da sociedade em que vivemos. Se tiver dinheiro no banco, aplique no “medo da morte”, ou seja, laboratórios, redes de hospitais, todo tipo de seguro, enfim…

_ Você é casado? _ Não.
Case-se com uma professora da escola Britânica, porém, descolada. Uma professora de artes que gostaria mesmo é de ser cineasta e que depois de alguns goles, começa a falar de Glauber Rocha.
Carregue seu corpo para happy hours e diga que sempre teve tesão na Galisteu ou na Bela Gil.
Seja óbvio. Não questione regras. Procure sempre estar por dentro das notícias. Papos superficiais são imprescindíveis. Aliás, pesquise informações para surpreender seus amiguinhos. Curiosidades, tipo a origem do “OK”.

_ E as redes sociais? A conta no Linkedin basta?

_ Não. Participe de todas. É preciso que você faça com que as pessoas lembrem que você existe. Use hashtags. Tenha lista no Spotify. Peça ajuda I. Faça uma lista de músicas impecável. Hoje, tudo gira em torno de seguir e ser seguido. Como no Linkedin. E o Instagram é indispensável.

_ O que são hashtags?
_ Pergunte ao Caetano Veloso. Outra coisa: Se você registrar um “absurdo”, como alguém estacionando o carro numa vaga exclusiva para deficientes, fotografe e publique nas redes. Mostre-se indignado. As pessoas acreditam que estamos vivendo em Viena e que o motorista infrator é um dos nossos maiores problemas.

_ Para ser alguém na vida eu preciso viajar?
_ Infelizmente, sim. Sempre para fora do Brasil. O ideal é que você conheça ou diga que sonha em conhecer Paris ou Nova York. Diga que você quer ver gente bonita, respirar novos ares e fazer algumas compras. Fernando Pessoa detestava. Mas você não é Fernando Pessoa. Viajar é preciso. E registrar os locais visitados no Insta é mais importante ainda.

_ É preciso ter metas e fazer planos!
_ Ao menos para os próximos dois anos. Diga que você está pensando em largar seu emprego e criar um pet spa ou algo assim. “Estou prospectando”.

_ Para ser alguém na vida eu preciso ter muitos amigos?

_ Não, é preciso ter inimigos. Dá mais ibope.

Ah! Outra coisa: Declare-se judeu.

 

Opção II

_ Para ser alguém na vida eu preciso ter amigos?
_ Sim. É preciso ter amigos e acreditar que o Brasil é o país do futuro. É preciso ser otimista.

Se quiser se divertir, convide seus amigos para tomar um vinho, coloque-os dentro da sua casa e proponha um debate sobre eutanásia. Uh! Na lista de convidados_ por favor_ ao menos um amigo ateu e um kardecista.

26 comentários em “alguém na vida”

  1. Abstrair é o negócio! Uma dica à moda Caetano: não sei se vou, não sei se fico, se fico aqui ou fico lá.

  2. Acho que “estou sendo alguém na vida”. Deus do Céu, por quê?.

    Que texto bacana, Silvia, dei risadas e reli porque teve coisas que fez eu pensar muito;

  3. Gostei de seu texto, revelador.
    Realmente pensamos viver na Suíça porém estamos bem abaixo de Guiné Bissau em muitos pontos… infelizmente se apegamos a hipocrisia em vez de buscar a amplitude da vida naquele mundo que está ao seu redor.

  4. Silvia, seus textos são muito legais.
    Por favor, escreva um livro de crônicas ou coisas do tipo.
    Suas linhas de raciocínio dizem muito de forma curta e direta.
    Internamente critico a sua frieza, cinismo e radicalismo, mas me vejo sendo da mesma forma ou pior. Este é o poder dos seus textos.
    Obrigado!

  5. Aos poucos que ainda tem alguma vida própria, à margem das nulidades, aparências, idiotices e mediocridades que dominaram o mundo:
    Olhe em volta e afunde na depressão profunda.
    Olhe para dentro se quiser sobreviver.
    Quando o tropel da manada se tornar ensurdecedor, tire a roupa, suba na árvore mais alta da floresta, case com uma chimpanzé e seja feliz.

  6. Silvia, eu sou Kardecista e adorei o senso de humor. Por óbvio e por sou assim na vida vou na opção 2. Excelente Ano Novo!

  7. Belo texto. A falta de noção sobre o sentido da vida, quem somos, de onde viemos e para onde estamos indo, é a marca registrada da era em que vivemos.
    Pobre humanidade rica.

  8. Excelente texto. Retrato da hipocrisia da sociedade, da superficialidade nas relações humanas. Nós somos o que a massa aparentemente bem sucedida espera que sejamos, determinar os objetivos e os padrões do sucesso diz respeito aos Gepetos procurando guiar suas marionetes sem cérebros em busca não dá felicidade, mas sim para ser pleno como a fantasia de um filme muito bem dirigido.

  9. Obrigado pelo tapa na cara. Estava precisando. Sempre preciso. Não posso perder a humanidade que possuo pela humanidade (desumana e artificial) criada pela sociedade. Seus textos poderiam ser roteirizados para um filme.

  10. Não entendi a “necessidade” de declarar-se judeu. Há algum problema em ser ou declarar-se judeu?
    Fora isso, ótimo texto.

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