Bücherverbrennung

E então a moça senta ao meu lado e começa a dizer que já foi 37 vezes para a Alemanha. Achei interessante. Uma pessoa que conta quantas vezes visita um país.
Porém, como ando fazendo a linha da aceitação do diferente, fiquei quieta e fiz uma das coisas que eu mais adoro na vida. A vida do outro contada por ela mesma.

_ Como é seu nome, perguntei. _ Helena, ela respondeu. Sou Helena nessa encarnação. Ah! você é espírita e esse, encontrando por acaso, certo?

_ Ela respondeu: sim, você certamente já atravessou algumas vidas comigo. [ Ih, caralho! Esquizofrênica ].

Quanto ao número de viagens, eu me perderia na quinta vez e jamais faria questão de contar quantas vezes estive em qualquer lugar do mundo para qualquer pessoa.

Até porque, sempre que viajo, eu vou junto e não consigo esquecer nenhuma das minhas angústias, logo, não é uma viagem, é uma troca de cenário. E eu não sou uma pessoa que curte visuais, portanto, viajar, pra mim, é brincar de conhecer outros habitantes desse planeta.

Minhas viagens são simples. Tenho fotos que eu considero interessantes. Uma planta nascendo – com esforço – entre ladrilhos.
Falar de mim não tem a menor graça. Até porque eu sou um poço de dúvidas e, apesar de tentar aproveitar a vida, não consigo entender o sentido de porra nenhuma.

Helena me disse que era espírita e que numa vida passada tinha sido um general alemão. Senti [ porque ela não conseguiu esconder ] que ela vivia aquela fantasia de forma intensa. Ela realmente achava que tinha sido o tal general. Não mencionou a guerra mas dizia que para livrar-se de seus carmas e evoluir espiritualmente, ela precisava viajar para a Alemanha e rodar todos os museus locais, o que eu achei um excelente carma. Trinta e sete vezes. Nem tanto.

_ Helena, esse general que te pertence ou te persegue esteve ‘encarnado’ em que ano?
_ Destruiu a vida de muitos artistas. Ela citou nomes e algumas obras. Eu não consegui gravar. Depois, me disse que o General considerava a arte demoníaca.
_ Entendo. Ele considerava a arte demoníaca. De certa forma, é. Traz o desconforto, a indignação, grandes questionamentos e, pelo que sei, não trazem panos quentes.

_ Você não acredita em Deus, Índia?
Pensei rápido para dar uma resposta que não a deixasse puta ou intimidada. Usei o velho e bom “força maior”.
[ ela riu, graças a Deus, e eu prossegui, não conseguia parar de falar ]
As religiões são divertidas. As diversas formas que o homem criou para tentar conviver com a idéia de que a vida tem um fim. O morreu – morreu é um pesadelo, não é? O espiritismo, nesse ponto, é genial. Você foi, está sendo e será.

A grande sacanagem é nos soltarem aqui, num planeta gigante, com sei lá quantos zilhões de habitantes, no meio de uma família, no Brasil. Para você, que acredita em caridade, é bacana. Pra mim, é mais complexo. Mas, vamos falar sobre outras coisas, por favor.

_ Quando sairmos daqui, desse vagão, podemos tomar uma cerveja juntas, não? Você gosta de Rolling Stones? Aliás, você vamos descer em que estação, Helena? Estou começando a me sentir sufocada.
_ Na sua?

_ Minha?

_ É a 1933. Grande queima de livros pelos nazistas.  Olha, vamos relaxar um pouco. Não podemos conversar com o General numa sessão dessas? Tem centro espírita aqui?  De repente, o cara já se arrependeu e só quer que a gente queime a biografia do Justus e do Neymar.
Deus, que texto chato.

 

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