coach

_ Vamos lá!, disse a moça.

_ A Silvia do passado, a Silvia do momento presente e a Silvia que vamos ‘montar’ para o futuro.
_ Sim, respondi. A Silvia sou eu e eu estou na sua frente. Logo, podemos evitar a terceira pessoa do singular, certo?

Ela diz que é importante que eu me enxergue como se eu fosse um quebra-cabeças que será remontado e vem com as perguntas:
_ O que é que Silvia quer, o que Silvia deseja, e o que Silvia precisa fazer para traçar este novo caminho?
Por que é que você está falando na terceira pessoa do singular se eu estou aqui, na sua frente?

_ Isso te incomoda? _ Bastante. _ Interessante. _ Vamos aplicar uns testes para descobrir se você é do tipo colérica, sanguínea, fleumática ou melancólica.

_ Já ouvi esse papo antes. Sou colérica e melancólica, ao mesmo tempo.

A moça começa a fazer perguntas do tipo “Quando você pensa em realização profissional – por exemplo – qual a primeira palavra que lhe vem à mente?”. “Quando você chega numa festa, você cumprimenta as pessoas que conhece ou espera que elas venham até você?”

Respondo, na terceira pessoa: Silvia quer fumar um cigarro. É possível?

_ Está ansiosa. É natural!, diz a moça, com um sorriso otimista no rosto.  _ Através de técnicas de PNL, meditação, reiki, constelação familiar, Kabbalah, trabalhos com argila e ayurveda [ os doshas vata, pitta e kapha ], certamente encontraremos as respostas.

Penso: Definitivamente, estou na merda. Era mais simples ter feito uma novena. Tarde demais. O workshop dura 72 horas.

Parte 1: Desenho livre

Fiz um peixe, uma bola de basquete e uma mulher nua.

Agora, é hora do coffee break. Enquanto os participantes tomam um suco e conversam alegremente, os ‘corretores de imóveis’ vão avaliar os desenhos. Santa superficialidade.

Curiosos para saber como são interpretados os desenhos?
_ Sim. Sou geminiana, tenho ascendente em aquário, lua em câncer e Urano na casa 1, seja lá o que isso signifique.

Parte 2: Avaliação dos desenhos.

A mulher nua representa Silvia despindo-se do passado, preparada para o início de uma nova fase. Vulnerabilidade e necessidade de transgredir.
A bola de basquete simboliza o movimento. Brutalidade e coragem. Desejo de poder. O peixe nada contra a correnteza ou se deixa levar por ela. Por outro lado, pode traduzir a sensação de um peixe fora d’água.

A coach – sempre animada – pergunta:
“O que você acha Silvia?”
Silvia – com a bola de basquete na garganta – simula estar surpresa e – sorrindo – diz:

_Faz todo sentido. Estou realmente impressionada.

Quando desenhei o peixe, lembrei do Fagner cantando Borbulhas de Amor. O taxista que me levou até o local me fez ouvir a música algumas vezes.
Lembrei da minha amiga Lizie, que usa uma camiseta que tem a cara do Fagner estampada, e a frase “I want to be a fish”, como legenda.

Cansada, fui para o meu quarto.
Tarefa: Os doshas vata, pitta e kapha. Leia a apostila e tente descobrir com qual deles você se identifica.

Cerveja no frigobar.
Me identifico.
Parte 3

Alcoolizada, na recepção: _ Um táxi, por favor. _ A senhora vai sair no meio do workshop? _ Vou, paguei adiantado. E não vou pedir devolução. Atualmente, meu hobbie é fazer papel de otária.

Fui comprar cigarros e nunca mais voltei. Antes de ser pitta, vata ou kapha, como diz um amigo meu, sou Pilz. Puta que me pariu.

macunaíma

Por favor, perdoem-me por ter nascido em Ipanema e por ser filha de um casal de brancos. Perdoem-me por detestar samba, frevo e axé e por não ter orgulho de ser brasileira.

Quando minha prima resolveu se apaixonar pelo filho do porteiro do prédio da minha avó, um moreninho [negro] que brincava de salada mista com a gente, ela foi #hashtag reprimida pela minha avó.

Naquela época, o preconceito não era velado. Era escancarado. Minha avó deixou as coisas claras:

_ Rosana, você pode brincar com o Edson. Não tem problema, querida. Ele é um menino muito educado. Mas, não é do nosso nível, entende?

Rosana era questionadora. Mas, mesmo que não fosse, naquele época, nós não tínhamos maturidade para entender o que seria uma pessoa do nosso nível.

Só começamos a entender essa merda quando Edson foi sendo naturalmente afastado. Óbvio. Ele não estudava na nossa escola, logo, ele não era convidado para as festinhas. No início, Rosana ficava revoltada. Ela queria que Edson fosse com a gente. Mas, com o tempo, ela substituiu o moreninho por um menino que minha avó chamava de príncipe, porque ele tinha os olhos azuis.

Me admira a fascinação do tupiniquim pelos olhos claros [risos]. Meu pai tem os olhos azuis e eu passei a infância inteira ouvindo tupiniquins me dizendo: _ Nossa! Você tem os olhos lindos. Imagine se fossem azuis, como o do seu pai!

Edson sofreu. Mas, com o tempo, ele também encontrou uma nova namorada. Uma moreninha do mesmo nível dele, é claro. Eu e Edson sempre fomos amigos. Foi ele quem me ensinou a jogar damas. Também foi ele quem me fez ler Macunaíma. Nós dois tínhamos que ler essa desgraça. Era um dos deveres de casa da minha escola e da dele.  Então, fazíamos o seguinte: Cada um lia uma página, em voz alta.

Eu, naquela época, não namorava ninguém. Era uma felizarda.

Edson seguiu seu caminho. Parece que casou-se com a moreninha. Acho que trabalha como professor de matemática e mora na zona norte do Rio.

Rosana casou-se com um “executivo” a Ambev e já morou em três países. É nutricionista mas não exerce a profissão. É uma dona de casa “primeira classe”. Sabe organizar festas e jantares como ninguém. Tem dois filhos: Maria Eduarda e Lucas. Ambos estudam na escola americana. Também tem uma Golden Retriever que se chama Princesa.

 

no me cogeréis vivo

… cuando todo se va al carajo, en mitad del caos en que nos toca vivir, las reglas son lo único que ayuda a mantener la compostura. Convencionales o retorcidas, claras o sombrías, compartidas o personalísimas, son necesarias aunque tú mismo no las practiques. Por lo menos como referencia. Hasta para transgredirlas, llegado el caso, hacen falta las putas reglas…”

Arturo Pérez-Reverte

Dados do livro: 624 págs.
Editoria: Punto de Lectura
Lengua: castellano