de smart não tenho nada

Em algum momento você não tem escapatória. Os problemas com a telefonia móvel já não podem mais ser resolvidos pela central de atendimento e você vai encarar a loja mais próxima da sua operadora. Você tenta minimizar o desconforto e se prepara para chegar antes dos outros. Fica na porta de um shopping, junto com os empregados, esperando o segurança abrir as portas do inferno e liberar a entrada da manada.

A telefonia móvel – o lado negro da força – escravizou a humanidade. Independente da classe social, da raça, da religião ou da profissão. Essa multidão de retângulos veio para ficar e não tem manual de etiqueta. Perceba que as pessoas insistem em mostrar vídeos ou fotos. Seja o primeiro banho do bebê, um trecho da festa da tia Odete ou piadas da Internet. Não perguntam se você está diposto a assistir. Metem o retângulo na sua cara e esperam por comentários. Os mais educados não deixam o aparelho exposto, num almoço. A grande maioria faz o oposto. Não consegue dar um passo sem registrar os fatos. São reality shows personalizados.

Não espere um atendimento diferenciado. Você faz parte de uma massa que está emburrecendo a cada dia que passa. Divirta-se. Você e todos os que estão ali, com uma senha na mão, fazem parte da mesma tribo e estão prontos para encarar um daqueles voos noturnos da Gol, com 36 escalas. Você é só mais um cidadão comum, idiota, classe média, adorador do Whatsapp e de milhares de aplicativos.

Na mesa ao lado uma senhora revestida de acessórios dourados e com um perfume forte explica para o atendente, aos berros, que o marido teve um AVC e que ela quer cancelar a conta. O atendente, treinado para não deixar ninguém sair de lá feliz, diz: Se ele é o titular da conta, senhora, só ele pode “estar efetuando o cancelamento da mesma”. A senhora perde a linha e diz que vai colocar a operadora na justiça.

Do outro lado, um cara com os calcanhares de fora e com três aparelhos em punho, discute as vantagens que cada operadora oferece. Existe uma tribo que não se contenta com um telefone. Eles têm vários. Pelo que entendo, parece que sai mais barato. São eles os que perguntam qual a sua operadora antes de perguntar o número do telefone. Eu faço a linha simpática. Converso com o atendente, como se eu estivesse realmente interessada na vida dele, comento sobre a quantidade de pessoas estressadas que eles têm que aturar durante a jornada de trabalho, faço o plano que o cara me sugerir, assino o documento que vai me deixar presa ao plano por pelo menos um ano, pego o telefone rosa flamingos de Miami que a operadora me deu de presente – porque era o único que tinha – e saio. Uma perfeita idiota.

_ A senhora tem certeza que não quer o 7, 8, 9?

_ Não. Esse ultrapassado está ótimo. É vintage.

Olho pro aparelho criado por Mr.Jobs e penso: Parabéns, Steve. Produto nobre. Sonho de todo pobre.

_ A senhora quer capa? _ De jeito nenhum. Acho capas o ó.

_ E película protetora? _ Jamais.

Sem saber usar e sem ter o menor interesse nas facilidades que trazem os aplicativos, aqui estou eu, com um Iphone na mão. Em algum momento, alguém me convenceu de que este aparelho mudaria minha vida.

E eu caí no conto. Pronto!

Let it Bleed

 

Ele é uma mulher interessante, quase fascinante. Sua sensualidade é crescente. Tem corpo e jeito de menina, parece exalar sexo, e de um jeito ou de outro acaba seduzindo e cativando homens e mulheres. Seu olhar é intenso e seus peitos são [sempre foram] naturalmente perfeitos. Sempre achei, do verbo ter certeza, que meu marido se sentia atraído por ela. O comportamento dele sempre mudava quando ela chegava. Por mais que ele tentasse demonstrar descontração, o que ele sentia mesmo era um puta tesão.

Mais de uma vez, na piscina, percebi os olhos dele percorrendo o corpo dela, hipnotizado, vidrado naqueles peitos que vieram ao mundo para tirar qualquer um do sério.

A sensação nunca me incomodou. Muito pelo contrário. Sempre me excitou. Numa tarde de sábado, com a casa cheia de amigos [no máximo dez pessoas], depois de tomar banho de sol e vinhos vagabundos de todas as espécies, percebi que os dois estavam conectados. Era como se a atração fosse muito maior que a razão e o sexo já estivesse rolando antes mesmo de eles se tocarem. Num dos quartos, meu marido guarda seus livros, filmes e CDs. E foi para lá que eles foram, com a desculpa de que faltava boa música para o nosso fim de tarde. De um canto do quintal, escondida atrás do varal, me posicionei para assisti-los e, por mais estranho que possa parecer, tudo que eu queria era sentir, mesmo que distante, o tesão ofegante que já havia tomado conta dos dois. Não demorou muito, ele já estava com as mãos naqueles seios perfeitos, primeiro por cima e, depois, por baixo do biquíni. Eles se beijavam como dois adolescentes. Estavam em transe. Diziam milhares de baixarias. E eu ouvia.

Não pareciam preocupados com nada, não olhavam pros lados. Quando percebi que estavam para lá de excitados, ou seja, quando vi meu marido colocando as mãos por dentro da calcinha do biquíni e se ajoelhando para cair de boca naquela boceta molhada, perdi a noção. No meu canto, comecei a me tocar, devagar [se fizesse isso bruscamente, gozaria em segundos e, minha intenção era prolongar a sensação, seguir o ritmo deles]. Imaginá-la molhada me deixava ainda mais excitada. Quando eles começaram a se esfregar, fiquei louca. E, no momento em que ele meteu e eu pude ver, no rosto dos dois, o prazer desesperador que antecede o orgasmo, mordi meu ombro, para não gemer alto. Tive um orgasmo intenso, com direito a espasmos musculares. O mesmo aconteceu com eles, antes mesmo que os meus batimentos cardíacos voltassem ao ritmo normal e eu retornasse à sala, com semblante de anfitriã comportada, devidamente saciada.

_ E a música? perguntei.

_ Let it Bleed, The Rolling Stones

pornochanchada: filmes popularescos de baixíssima ou péssima qualidade, formal e cultural, caracterizados por cenas de nudez, de sexo explícito e diálogos que mesclam pornofonia e humor. Puro deboche.

 

quiabo recheado com camarão semicozido

Fui até o Arpoador encontrar um grupo de amigos de São Paulo. Como bons paulistanos – com a melhor das intenções – o grupo já tinha feito até reserva para jantarmos no restaurante da chef Roberta Sudbrack. Como não sou frequentadora de restaurantes especializadas em releituras, achei boa a ideia de experimentar um bom prato no Jardim Botânico, mesmo sendo eu uma detestadora de programas agendados com antecedência, principalmente no Rio, onde graças ao Cristo Redentor, da praia podemos partir para um chope no Bracarense com um grupo de turistas da Dinamarca que conhecemos na praia.

Mas, para não desrespeitar o cronograma montado pelo grupo, esqueci o Bracarense e os turistas dinamarqueses. Parti para o restaurante da Roberta com paulistanos.

Chegamos ao local no horário marcado. Achei a iluminação do ambiente pouco acolhedora. De repente, dentro do contexto e do conceito, aquela iluminação representava alguma coisa que eu desconhecia.

Entramos e fomos para o andar de cima. Não me lembro mais qual foi o vinho indicado para acompanhar a primeira “experiência”. Era bom e muito suave. Junto com ele, entradinhas pitorescas. Pão de queijo com outro nome. Baguete feita com farinha do Amapá e outras coisas assim, meio circenses.

Acho que você – caro leitor – deve ir até lá para conferir. Afinal, Roberta não deve ter estrelinhas em guias por acaso. Já deve ter feito muito robalo cozido com tomate e jambu para conquistar seu espaço no mundo da culinária cool contemporânea. Me lembro do prato principal. Quiabo recheado com camarão semicozido.

_ Não gosto, não como. Posso substituir por alguma outra coisa. Não é aqui que tem um frango com polenta, receita da avó da Roberta?, perguntei para o garçom.

– Sim. Estarei verificando com o chef. Só um minuto, disse o garçom, no gerúndio.

Pensei: Vai levar tempo! Nesse tipo de restaurante, questionar o prato principal é quase uma ofensa. Levantei para fumar um cigarro e pedi para que uma das minhas amigas escolhesse meu prato.

Aquela altura do campeonato, o que eu queria era ver meus amigos satisfeitos e sair dali.

Eu combino tanto com esse tipo de programa que resolvi tomar uma cerveja para que o garçom percebesse que eu não estava lá muito preocupada em harmonizar nada. O restaurante estava cheio de gente maquiada e perfumada. Parecia uma recepção de casamento. Caipiras com dinheiro que chegam aqui torcendo para encontrar um ator da Globo.

Soube que a elite carioca venera o cachorro quente da Roberta. Salsicha húngara levemente picante, com queijo guyere ralado, numa mini baguete! Para acompanhar, quenelle de mostarda importada com sementes! Super gourmetizado. O cachorro quente chama-se Subdog e desde o ano passado, começou a ser vendido em São Paulo.

A cozinheira, que mantém no Rio de Janeiro um premiado restaurante com seu nome e foi eleita no ano passado a melhor chef mulher da América Latina pela revista britânica The Restaurant, também propõe uma versão vegetariana. Nela, a salsicha dá lugar a cenoura assada, que vem acompanhada por queijo fontina, caponata de berinjela e harissa, um molho marroquino levemente picante.

Parabéns, Roberta! Parabéns! Sucesso! Público garantido.

Bom, desci para fumar um cigarro na calçada e encontrei um outro fumante.

Perguntei:

_ É a sua primeira vez aqui?

_ Esse é meu quarto cigarro.

_ Não, disse eu, rindo. Primeira vez aqui, no restaurante?

_ Sim, é minha primeira vez aqui.

_ O papo lá na sua mesa está tão ruim assim?

_ Suportável. Previsível. Estão conversando sobre vinhos. Sabe, eu prefiro restaurantes mais tradicionais, como o Café Lamas, conhece?

_ Muito. Instituição da boemia carioca, fundado na segunda metade do século XIX. Adoro aquele chope e o tradicional filé à francesa. É uma experiência incrível! Posso chamar um táxi?

_ Deve! respondeu ele, aliviado. Nós vamos sair à francesa?

_ É óbvio, disse eu, aliviada por ter descido para fumar com a minha bolsa. Ah. Não nos apresentamos. Meu nome é Silvia. E o seu? Renato.

No táxi:

_ Qual o destino, senhora? perguntou o taxista.

_ Rua Marquês de Abrantes, 18.

meditação guiada

Bom dia! Meu nome é Turmalina e eu estarei guiando vocês_ no gerúndio_ nessa meditação matinal guiada que vai fazer vocês terem um dia mais tranquilo e positivo. Bom, vou pedir para vocês estarem sentando nos tapetinhos e se acomodando de pernas cruzadas, do jeito que for mais confortável para vocês. Agora, comecem a prestar atenção no som. Cachoeira, passarinhos, chuva. É importante que vocês tentem se transportar para um lugar onde se sintam em paz.

Uma praia deserta, um parque repleto de árvores, smartphones desligados, enfim, só você com você mesmo.

Uma participante diz:

_ Deus do céu! Isso me parece assustador!

Turmalina,  com aquela voz mansa, responde:

_ Não se preocupe. Isso pode parecer desconfortável no início. Se permita!

Podemos estar prosseguindo?

_ Sim, claro. Desculpe-me.

Concentrados no som, fechem os olhos, apoiem as mãos nas costelas e vamos começar a inspirar e expirar, lentamente, sentindo o ar entrando e saindo do peito. Inspirem e expirem somente pelo nariz.

Sintam-se privilegiados por estarem aqui, participando dessa meditação matinal. Nem todas as empresas acreditam que a meditação tem  influência na saúde mental e no rendimento de seus colaboradores. Hashtag gratidão.

Fernanda fala no ouvido de Mariana: _ Eu falei que era pra gente chegar atrasada. Meditação guiada, dentro do escritório. Som de passarinho. E que nome é esse? Turmalina. Fantasiada de indiana? Eu não tenho paciência para esse tipo de palhaçada, Mariana!

_ Cala a boca, Fernanda. De repente vai ser bom pra gente! Meditar está super na moda. Vamos lá. Hashtag gratidão, Fernanda [ risos ].

_ Você tem razão. Preciso me “engajar”. Participar de maneira colaborativa! #pqp

Voltando para a condução da meditação. Depois de descrever paisagens, borboletas, golfinhos nadando e os cacetes, Turmalina começou a pedir para que imaginássemos o ar passando por cada órgão do nosso corpo e para que tentássemos esvaziar a cabeça. Imagine um trem passando e levando todos os seus pensamentos. O trem não para, logo, você não tem tempo de agarrar-se a nada do que passa pela sua cabeça.

Mariana rapidamente fechou os olhos e entrou no clima. Conseguiu “se permitir”.

Fernanda também fechou os olhos e começou a respirar, só que o que passava pela cabeça dela era o seguinte:

_ 3 Omo líquido de 3 litros

_ 3 Comfort Cheirinho de Bebê, 2 litros [ Beto, não pegue o Comfort concentrado que você trouxe da última vez ]

_ 1 Veja limpeza pesada

_ Fraldas tamanho G, qualquer marca

_ Ração pro Mozart [ você sabe qual é. Whiskas sabor peixe ]

O que Fernanda não notou é que ela não estava só pensando na lista de compras, ela estava murmurando, falando bem baixinho. Fernanda se transportou para tarefas domésticas, estava passando uma lista para o marido e, só se deu conta disso quando Turmalina chegou perto dela e, respeitando o momento da aprendiz, disse:

_ Você está atrapalhando o resto da turma, querida. A impressão que dá é que a senhora recebeu um santo!

_ Desculpe-me, Turmalina. Meu trem está sobrecarregado entende? Estou fora do trilho. Não consigo parar de pensar em tudo que eu tenho para fazer.

_ Entendo. Volte a respirar e tente se concentrar. Largue o controle! Largue o controle!

_ Turmalina, eu não suporto passarinhos. Esses infelizes começam a piar às 05:00 horas da manhã. E eu já estou descontrolada.

_ Querida, eu preciso continuar a guiar a meditação. Ou você fica e se entrega ao processo ou você se retira e faz sua lista de compras. Podemos conversar quando acabar a meditação, combinado?

_ Combinado. Eu vou ficar. Vou tentar.

Agora, Feranda estava muda, mas a cabeça continuava:

_ Passe na lavanderia e pegue os uniformes da Jéssica

_ Não esqueça de pagar o jardineiro

_ Ligue para Dona Roseli e encomende um empadão de palmito. O telefone dela está num post-it, na porta da geladeira.

_ Ah! Voltando ao mercado: Veja Perfumes Lavanda e Bem-Estar, Vanish Oxi Action Crystal White [ pote branco ], pasta de dente e…

_ Mariana, sua cabeça está caindo e você está roncando!

_ Como?

_ Roncando!

_ Nossa, dei uma relaxada maravilhosa! E você?

_ Depois te conto!

Turmalina, já finalizando a meditação matinal, pede para que as pessoas abram os olhos e lentamente voltem ao estado de plena consciência.

_ Como estão se sentindo?

Todos dizem que estão se sentindo muito bem e que a experiência foi incrível. Alguns resolvem descrever o processo, dizendo que tiveram dificuldade no início e que depois conseguiram “se entregar”. Turmalina ouve, com um sorriso no rosto e com aquela tatuagem de uma pirâmide, feita em 1980, já verde e borrada, no ombro esquerdo. Muitos anéis e aquele colar de sementinhas que os indianos usam.

_ Namastê, diz ela e pede para que a turma repita.

Namastê é uma espécie de Saravá moderno.

Ela explica o significado para os coleguinhas.

Namastê significa “o Deus que habita no meu coração, saúda o Deus que habita no seu coração”.

O gesto expressa um grande sentimento de respeito, invoca a percepção de que todos indivíduos compartilham da mesma essência, da mesma energia, do mesmo universo, portanto o termo e a ação possuem uma força pacificadora muito intensa.

Um alegre diz:

_ Nossa! Que mensagem linda! Que tal criarmos um grupo de WhatsApp?

_ Morri.

ps: Turmalina me deu um cartão e disse que estava disposta a me dar aulas particulares, em casa. Mariana, para a minha surpresa, adorou a ideia do grupo de WhatsApp.

_ Morri de novo. Preciso de um cigarro!

_ Namastê e com licença!

No fumódromo, com o cigarro numa mão e o telefone na outra:

_ Beto, estou com a sua agenda cheia. Tudo está claro e nítido na minha cabeça. Acabei de participar de uma meditação!

_ Transcedental? [ risos ]