Eleanor Rigby

Do décimo primeiro andar de um prédio, Flamengo, eu observo as janelas de um outro prédio. São diversas cenas separadas por paredes de concreto.
Vejo uma gorda, de camisola, sentada no sofá, assistindo TV. Ao lado dela, um labrador, deitado _tão gordo quanto ela. Era uma pintura de Lucian Freud.
Vejo um casal arrumando as plantas do apartamento. Coloca a samambaia pra cá, coloca a samambaia pra lá. Pareciam namorados ou recém casados. Ele sem camisa. Um corpo bonito. Um magro com poucos músculos. Ela de short e camiseta. Não parecia o tipo de mulher que se preocupa com o corpo. Tinha pinta de quem jamais se preocupou em fazer exercícios físicos. Era ruiva. Tinha os cabelos compridos e presos num rabo de cavalo bagunçado. Ali, rolava sexo.
Do outro lado, um casal de velhinhos jogando cartas. Um apartamento cinematográfico. A decoração era a mesma desde o dia em que se casaram. Senti vontade de bater naquela porta. De pirar naquele cenário. As cortinas da década de 70.
Trago meu olhar pra mim. Emocionalmente tetraplégica, fumando um cigarro, observando a vida alheia e pensando…
Isso daria um livro.
Por último, vejo uma mulher de meia idade, acendendo um incenso, uma vela e embaralhando cartas numa mesa coberta por uma toalha que mais parecia uma canga. Não era gorda nem magra e fazia a linha hippie. Com certeza, estava esperando alguém _ uma cliente _ para jogar suas cartas de tarô.

Os apartamentos daquele prédio tinham sessenta metros quadrados. Abaixo do casal da samambaia, vivia um ciclista desses que pedalam às seis horas da manhã, de capacete e malhas fosforescentes coladas no corpo. Ele saía às seis, voltava por volta das sete e pendurava a bicicleta _ que ele jamais deixaria na garagem do prédio_ na parede da sala.
Depois de vinte minutos, aparecia de camisa social, calça jeans e um crachá pendurado no pescoço. Era jovem e morava sozinho. Assim que ele saía, chegava a empregada, uma senhora, negra e gorda, que me parecia muito simpática. Ela arrumava o apartamento e passava horas na cozinha. Com certeza, deixava comida pronta para o ciclista. Depois disso, ela deitava na cama do rapaz e assistia TV por uma ou duas horas. Era uma figura.
Às quatro da tarde, ela se levantava e partia. Às quatro, eu deveria ter me levantado para ir para terapia. O ciclista chegava em casa às vinte horas, em ponto. Tirava a camisa social, jogava o crachá na mesa onde ficava o computador, entrava na cozinha e voltava com um prato de pedreiro. Comia com pressa, já checando seus e-mails ou perdendo seu tempo no Facebook. Terminava de comer, levava o prato até a cozinha e voltava para o computador. Se acomodava na cadeira e _ de janelas abertas _ abria o zíper da calça jeans, colocava o pau para fora e tocava uma bela de uma punheta. Já relaxado, ele se levantava, tomava um banho, vestia uma cueca [ estilo boxer ], deitava na cama, ligava a TV e dormia. Uma rotina invejável.
Eu _ neurótica _ pensava: Vai deixar a louça suja? E a toalha molhada, assim, pendurada, de qualquer jeito, na porta do armário?

Comecei a receber dezenas de mensagens da minha psicoterapeuta. Afinal, depois que comecei a observar homo sapiens entre quatro paredes, eu perdi completamente a vontade de falar de mim. Eu já me conheço e me acho um pé no saco.
Desci para comprar cigarros.
Me deparei com o casal da samambaia na banca de jornal. Impossível não reconhecer aqueles cabelos ruivos. Descobri que ela também fumava e era artista plástica. Os dois estavam discutindo. Ele dizia que ser artista plástica no Brasil era uma merda e ela defendia sua classe.
_ A arte transforma. A arte cura. A arte puxa. A arte empurra…
Ela era muito bonita. Tinha uma tatuagem estilo Yann Black nas costas. Ele também era interessante. Tinha um olhar penetrante, uma voz forte e um escorpião tatuado no braço. Todo escorpiano adora ser escorpiano. E eles têm motivo para isso.
Voltei pra casa.
Ciclista estava ganhando uma vizinha. Uma modelo. De cara, pensei que fosse a Guta Ruiz. Não era. Porém, era tão bonita e assustadoramente presente quanto a Guta.
O porteiro a ajudou a largar duas malas e três caixas de papelão no chão. Ela abriu as janelas e saiu. Voltou com algumas sacolas do Zona Sul. Colocou algumas coisas na geladeira e outras no banheiro.
Depois disso, tirou a camiseta e abriu uma garrafa de vinho.
A taça, ela tirou de uma das caixas de papelão.
De sutiã preto e calça jeans, colocou fones no ouvido e começou a arrumar suas coisas. Aquele apartamento _ com certeza_ já estava decorado.
De repente, ela se aproximou da janela e começou a observar sua vista. Enrolou um baseado com maestria.
Era fino e _ provavelmente_ tinha oito centímetros. Acendeu e fumou, tranquilamente, como se estivesse em Santiago, no Chile.

Perdi o sono e resolvi dar uma volta pelo quarteirão. Obviamente, não resisti e resolvi passar em frente ao prédio que eu observava pelos fundos. Para a minha surpresa, encontrei a escatológica obra de Lucian Freud em movimento.
A gorda – de camisola – e seu labrador, ainda mais gordo, estavam na rua, em frente ao prédio. Ela não parecia disposta a levar o cão para passear. Provavelmente descia para que ele pudesse usar um canteiro como banheiro químico.
Continuei caminhando. Na esquina, encostada num poste, estava a bela ruiva, fumando um cigarro e enxugando suas lágrimas.
Que sorte!
Perfeito! Vou perguntar se ela tem fogo.
_ Oi!
_ Oi!
_ Você pode me emprestar seu isqueiro?
_ Lógico.
Depois de acender o cigarro, discretamente, perguntei:
_ Você está bem?
_ Não. Acho que bebi demais e acabei discutindo com meu namorado. Vai passar! Ele _ quando quer _ consegue me fazer sentir a pior das mulheres. A família dele é esquerdista e eles são todos muito radicais. A irmã dele me detesta sem motivo algum. Gente mal educada. Gente que não sabe conversar.
_ Você quer conversar?
_ Quero! Estou longe dos meus amigos, insegura, sem grana.
_ Você é paulista, certo?
_ Certo!
_ Que merda!
Ela riu e me perguntou:
_ Por que?
_ Por amor, você veio parar neste balneário decadente!
Ela deu uma gargalhada e disse:
_ Meu nome é Lia.
_ O meu é Silvia. Eu moro naquele prédio ali, no apartamento 1103.
_ Bom saber! Não tem nenhum barzinho aqui por perto pra gente tomar um chope?
_ Você disse que já bebeu demais!
_ Foda-se!
_ Que assim seja!
_ Deixa eu te perguntar uma coisa: a irmã do seu namorado é feia?
_ É…
_ Explicado.

Para quem se perdeu entre os capítulos, Lia é a ruiva exótica, parceira do escorpiano, artista plástica e dona das samambaias.
Sentamos no Belmonte, Praia do Flamengo, número 300.
Apesar de ter dito que já havia bebido, Lia me parecia sóbria.
Estava de calça jeans, havaianas e com uma camiseta do gato Felix.
Lia lembrou-se que estava sem carteira. Eu tinha cinquenta reais no bolso.
Depois do terceiro chope, Lia resolveu falar sobre imbecilização coletiva e me disse que era fã de Olavo de Carvalho. Depois do quarto chope, vieram as artes plásticas e Adriana Varejão.
No quinto, ela me contou que tinha 32 anos, era católica e devota de Santa Teresinha de Lisieux.
No sexto, ela me contou que conheceu Marcelo _ o escorpiano _ na Barra do Sahy, litoral norte de São Paulo, quando tinha 28 anos.
No sétimo, eu já não estava mais em condições de contar chopes e precisava _ urgentemente_ de uma pausa para fumar um cigarro.
Deixamos a mesa e fomos pro lado de fora do bar.
Cada uma com sua tulipa em punho.
Depois de dar o primeiro trago, Lia olhou nos meus olhos e perguntou:
_ Você me acha atraente?
_ Sim. Atraente e carente [ risos ]
_ Eu tenho uma necessidade ridícula de me sentir desejada.
_ Todos temos.
_ Eu não parei de falar desde que chegamos aqui.
_ Eu percebi.
_ Então, antes de conhecer o Marcelo, eu passei quatro anos com a Debora. Nós estudávamos juntas na FAAP. Ela foi o primeiro grande amor da minha vida. Foram quatro anos intensos. Quando resolvemos morar juntas, o relacionamento foi pro saco.
_ Por que?
_ Ela se tornou possessiva.
_ E o Marcelo?
_ O Marcelo é ciumento. É diferente.
_ E_ pelo visto_ não é preconceituoso?
_ Não. Se é, faz de conta que não é. Eu me apaixono por gente. Ele, por um acaso, tem um pau. Explicar isso para essa gente medieval que insiste em etiquetar-se é um caos!
_ Concordo. Por que você estava chateada quando nos encontramos hoje?
_ Por causa das samambaias que estamos pendurando lá em casa! O Marcelo estuda feng shui e eu acho isso ridículo!
Deixei Lia em frente ao prédio dela. Quando caminhava pela calçada, ela gritou:
_ Eu não esqueci. Aquele prédio ali, apartamento 1103.
Pensei! Minha Santa Teresinha de Lisieux!

No dia seguinte, Lia deixa um bilhete na portaria:

“Minha vida parou.
Eu podia respirar, comer, beber e dormir, porque não podia ficar sem respirar, sem comer, sem beber e sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável.
Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não meu desejo, aquilo não daria em nada.”
_ Liev Tolstói

Eu peço socorro. Editor, preciso de um assistente. Não estou satisfeita com a Lia que criei e não sei o que fazer com ela. O ciclista está pronto. A namorada é só o começo.
A modelo tem que entrar em jogo. De repente, ela pode resolver marcar uma hora com a taróloga. E o casal de velhinhos_ por enquanto_ joga uma partida de dominó ou cheira uma carreira de pó.
Marcelo, namorado da Lia, que curte feng shui, é arquiteto. Ele vai revolucionar o mercado de grades protetoras. Vai criar grades personalizadas feitas com cabos de aço. Essa coisa deselegante, que faz com que qualquer apartamento pareça um galinheiro, vai ganhar um concorrente.
Além disso, precisamos de mais acontecimentos.
Até o momento, nossa única obra de arte é a gorda de Lucian Freud.

A vida do ciclista mudou. A casa dele também. A namorada trazia quadros, orquídeas. Juntos, eles instalaram um ventilador de teto na sala e um novo aparelho de ar condicionado no quarto. Até as persianas eles trocaram. As antigas pareciam persianas de escritório. Cheguei a pensar que ela fosse se mudar pra lá.
Lembro-me de um dia que os dois discutiram e ela saiu derrubando o que via pela frente. Deixou cair um vaso de flores que ela mesmo havia levado para aquele ninho. Ele saiu atrás, meio desesperado, de camisa social e crachá, atrasado pro trabalho.
A moça_ que eu conhecia não sei de onde_era delicada e intensa.
Depois de 20 minutos, ela voltou. A empregada já estava no apartamento. Ela ajudou a empregada a recolher os cacos de vidro.
Deixou um bilhete na mesa do computador. Saiu e voltou com um vaso novo. Deixou o vaso vazio. Achei poético.
Fumou um cigarro e partiu.

Ele chegou, leu o bilhete, olhou pro vaso mas não pegou o telefone. E eu torcendo para que ela voltasse. No dia seguinte, ele acordou cedo e preparou-se para pedalar. Ele saiu, ele voltou. Tomou seu banho e foi trabalhar. E nada dela chegar. À noite, graças a Santa Teresinha de Lisieux, ela apareceu. Achei que fossem retomar a discussão. Enganei-me. Os dois se abraçaram. Ele segurava o rosto dela e a cobria de beijos, como quem diz: _ Jamais faça isso outra vez! Nesta noite, eles não foram pra cama. Ele sentou a moça na mesa. Arrancou a calça jeans que ela vestia e ajoelhou-se. As pernas dela tremiam e ele prosseguia. Desnecessário descrever aqui o que ele fazia. Levantou-se e beijando-a na boca meteu o pau onde queria.
Bruto e romântico. Um homem apaixonado. Ela parecia uma escultura em movimento.

O edifício _ que se chamava Eleanor Rigby _ pegou fogo no dia 10 de fevereiro de 2015. Ninguém sobreviveu, exceto eu, que era a namorada do ciclista e estava na farmácia, comprando a pílula do dia seguinte.

Antes do incêndio, Yolanda, a obra de Lucian Freud, resolveu livrar seu labrador da monotonia e contratou um passeador pra lá de excêntrico. Uma bicha frenética, designer de sobrancelhas. Estilo nasci na merda, superei todos os obstáculos e não suporto gente que reclama da vida ao meu lado.
Ed era simpático e muito bem educado.
Pelas manhãs, ela passeava com cachorros. Durante a tarde, trabalhava num salão, desenhando sobrancelhas. Fora isso, Ed era vegano e fazia pratos incríveis sob encomenda.
Marcelo, namorado de Lia, vendeu seu projeto de grades de segurança personalizadas [ em cabos de aço inox ] para um escritório de arquitetura quase falido.
Lia_ ainda meio perdida_ resolveu fazer uma mini-horta na área verde do prédio. Com o consentimento da síndica, obviamente.
Isis, a modelo, morreu sem se ver na capa da Vogue do mês de março.
O incêndio começou no apartamento dos idosos.
Motivo: vazamento de gás na cozinha.
A taróloga não teve como prever nada disso.
O ciclista estava no elevador.

ps:
Ed também sobreviveu. Ele estava passeando com o labrador de Yolanda.

estrogonofe

Em qualquer empresa grande – no job description dos diretores – existe o item ‘aproximação dos funcionários que estão abaixo de você’. Isso envolve tentar decorar os nomes das esposas e filhos, fazer de conta que você realmente se importa com a família deles, falar_com naturalidade_ sobre assuntos como terapia, educação dos filhos e viagens pitorescas para Campos do Jordão, Cabo Frio, Disney, Nova Iorque e os cacetes.

Vale almoçar com eles _ uma vez por semana_ no refeitório e, uma vez por mês, escolher alguns funcionários e convida-los para jantar na sua casa. O gerente se sente prestigiado e rende mais no trabalho. Alguns chegam a pensar em chamar o chefe – o diretor – para ser padrinho do filho que está por vir.

“Puta que me pariu, como dizer não?” Declare-se judeu, sempre.

A mulher do diretor já tem seu script pronto. Durante o jantar, fala das crianças, da escola, dos preços de tudo que vale a pena comprar “lá fora” e diz que o marido não tem tempo para nada e que tudo acaba sobrando para ela. Neste momento, todas se identificam e vibram.

A minha presença é importantíssima para eles. Faz parte do meu trabalho deixa-los felizes. Não posso demonstrar minhas vontades ou falar o que me vem à cabeça, assim, sem medir consequências. Não posso olhar para a mulher que está sentada ao meu lado e dizer: _ Por que carregar tanto no perfume, moça? Isso altera o olfato, interfere no paladar e no gosto da comida.

O cardápio é sempre exótico. Normalmente, alguma receita da Nigella Lawson ou semelhantes. Aqui, nos deparamos com duas possibilidades:

Possibilidade 1 – A empregada, Nilza, que trabalha para o casal há anos ‘dá conta de tudo’. Frase da anfitriã: “Eu não vivo sem a Nilza. Dispenso o Marcos mas não deixo a Nilza sair de casa, de jeito nenhum”. [risos e mais risos ]. O anfitrião ouve, chega perto da esposa, com um sorriso no rosto e fala pronta: “Trabalho o dia inteiro e ainda tenho que ouvir isso, amor?”. Todos acham tudo super funny e se identificam. Como são patéticos e felizes. Eu, como convidado, já estou fumando um cigarro na varanda. Marca nova. Chama-se Foda-se, da Philip Morris.

Possibilidade 2 – A anfitriã, Monica, inspirada em programas de culinária do GNT e nos filmes de Hollywood em que a mulher fica de avental, na cozinha, lindíssima, com uma taça de vinho na mão, fazendo todo o jantar, resolve incorporar este personagem. Ela adora cozinhar e receber visitas. Brincar de ser Rita Lobo. No entanto, a criadagem continua em cena. Nilza é o antigo Batista do Claude Troisgros. As esposas dos gerentes ficam ao redor, interessadas na receita. Ficam encantadas com a cozinha toda equipada e falam sobre os aparatos. “Olha, esse transformador de tudo em espaguete é sensacional. Vale super mega a pena! Você faz espaguete de cenoura, de abobrinha! E anula o carboidrato”, diz uma das convidadas, estilo magra, anoréxica. Penso: Poor kids!

Enquanto todos degustam vinhos, eu bebo uma Heineken. As músicas variam muito. Normalmente, o som é discreto. O volume depende da disposição dos cômodos. Nenhum convidado deve ouvir o som do quarto da sogra de Marcos, que não dispensa a novela e não se sente à vontade em participar do evento. Na verdade, ela é dispensada do jantar. Os mais velhos, que estão beirando os 80 ou 90, em breve, os 120, normalmente ficam isolados ou são montados – colar e brinco – e aparecem somente para cumprimentar o pessoal e ouvir os falsos “Nossa, como a senhora está bem”. O casal revela a idade da senhora. Os convidados ficam es-pan-ta-dos. Monica ou Marcos dizem que ela é lúcida, ouve bem e tem até amigos no Facebook. Algum retardado tem que seguir script e soltar um: _ Ela está melhor que a gente!

E então, começa o papo do como envelhecer bem. Momento perfeito para outro cigarro.

Um começa a dizer que parece mais jovem que o outro e essa chatice vai tomar pelo menos uns 15 minutos de conversa. Monica, muita simpática, me chama e diz: “Pode fumar aqui dentro!” Eu digo: “Prefiro fumar aqui fora. Assim não tenho que me preocupar com para que lado a fumaça está indo. E sou o único fumante, Monica. Sou um ignorante [rs]”

Bom, quando termino de fumar e volto para mesa o assunto é “Nós estamos tentando melhorar a alimentação lá em casa. Cortamos refrigerantes, substituímos o arroz comum pelo integral, usamos quinoa nas saladas. Foi a Bel, outra convidada, que nos indicou a Marisa, nutricionista. Ela é ótima porque ela faz o cardápio de acordo com aquilo que a gente gosta de comer, sabe?”.

E eu, calado, penso: Olha o que o mundo fez com a cabeça dessa gente. Precisam de uma nutricionista para compor uma dieta balanceada. Aliás, se tem uma coisa que eu não suporto é mulher escrava de balança. Normalmente, são meio burricas.

É chegada a hora.

Monica serve o cordeiro recheado com qualquer coisa que eu ouvi e não entendi, risoto de aspargos e uma salada de rúcula com manga. Acreditem. Existe um site que diz quais os pratos que estão na moda. Achei que fosse bobagem. Não é. Atualmente, servir um estrogonofe, é considerado brega. Pensei: Se Monica tivesse optado por um tradicional estrogonofe de filé mignon com batata palha, ela não imagina o sucesso que faria.

O nome disso é autenticidade, coisa que ninguém ali tinha.

Estrogonofe representa simplicidade, um dos mais importantes e, às vezes, subestimado conceitos da vida. Digamos que o estrogonofe com charme seria um prato acolhedor e uma viagem no tempo. Afinal, ele já esteve em alta!

O cordeiro é considerado sofisticado. A porra do pato também. Eu não como nenhum dos dois e me satisfaço com a rúcula e risoto de aspargos. Para proporcionar um orgasmo coletivo, peço para Nilza, um ovo frito. Pronto! Acabo de me tornar o cara mais bacana da face da terra. E o ovo frito entra pra história.

Eu não sou esposa nem gerente. Sou o vice-presidente.

retiro-me

As três descrentes e carentes. Eu, Claudia e Renata. Um retiro de ioga pela frente. A viagem de carro foi curta. Porém longa o suficiente para sacarmos que o retiro – 3 dias – seria surpreendente e mais que o suficiente.

Para começar, fomos as primeiras a chegar na pousada. Eu e Claudia optamos por quartos individuais. Renata estava num outro canto e dividiria o quarto com mais seis pessoas desconhecidas.
Conversa entre eu e Claudia, nos nossos chalés construidos para gnomos.
_ Claudia, não vou ter coragem de deixar a Renata sozinha, lá. Esse pessoal que vai chegar deve ser aquele tipo que acha Baygon um crime ambiental. Gente que passa 3 horas contemplando uma joaninha e acha que porque pratica ioga precisa se fantasiar de hippie. Vai por mim!
Claudia teve uma crise de riso e disse:
_ Silvia, ela optou por ficar lá. Você pode sugerir. Se ela se sentir à vontade, ela sobe e dorme no seu quarto. Vamos ao restaurante. São 11 horas. O povo só chega no fim do dia. Relaxe!
_ Claudia, eu faço [ aliás, pratico ] ioga justamente porque não sei relaxar.
Bom, peguei meu Baygon e coloquei num saco plástico, junto com meu Marlboro vermelho e isqueiro. Passamos pelo albergue da Renata, que ficava no caminho do restaurante. Antes mesmo de receber o convite, Renata já saiu, de mochila, dizendo: _ Pilz, posso dormir no seu quarto? _ Estávamos falando sobre isso, Renata. Você dorme comigo!, disse eu.

Ela: _ Esse quarto tem cheiro de mofo e as duas meninas que estão lá falam devagar e têm pelos debaixo do braço [ risos ].

_ Puta que me pariu!, exclamei.
Sentamos no restaurante.
Perguntamos para a moça que tipo de cerveja eles ofereciam.
Resposta:
_ Vocês estão no retiro. Não podem beber nada alcoólico.
Claudia deu uma franzida de testa, Renata respirou fundo e eu me lembrei de uma coisa maravilhosa. Os dois chalés individuais, o meu e o da Claudia, não pertenciam ao templo ou qualquer coisa assim. Eram administrados por outra pessoa.
Quando chegamos, assim que entrei no meu quarto, abri o frigobar para colocar minhas duas latas de coca-cola para gelar. Levei coca-cola, já imaginando que eles não fossem oferecer o refrigerante assassino.
Me deparei com 9 latas de cerveja. Se tem no meu, deve ter no frigobar da Claudia. Bingo. Temos cerveja para a tarde inteira. E lá ficamos as três, isoladas, esperando o grupo que só chegou por voltas das 18h.
Conforme o tempo foi passando, as três foram perdendo a censura e abrindo o jogo. Ou seja, ocidentalizamos a porra toda. Cerveja, cigarro, lágrimas mexicanas. Quando os mestres e os discípulos chegaram, eu me escondi no meu quarto. Lampejo de lucidez.
Não existe a menor chance de eu praticar ioga [ me irritam os que dizem iôga ] depois de beber cerveja. Vou tomar um banho e ficar por aqui mesmo. Claudia fez o mesmo. Renata estava ótima. Chorou tudo que tinha para chorar contando detalhes íntimos da vida dela para duas pessoas, eu e Claudia, que ela havia acabado de conhecer. Foi para a cerimônia de abertura leve e disse que voltava para que fossemos jantar juntas, as três.
No paralelo – que fique claro – um dos participantes do evento, dias antes, me chamou num canto e disse:

_ Silvia, minha esposa vai pro retiro comigo. Ela é muito “ligada”. Estou te dizendo isso para que você não me entenda mal se eu não olhar na sua cara. Ela tem ciúmes de você.

_ Como? Por que?

Fiquei perplexa. Não entendi porra nenhuma. Estava com aquele comentário entalado na garganta. Quando contei pra Claudia, ela chorava de rir.

_ Claudia, foi patético. Não teve graça.
_ Silvia, achei um motivo para me divertir. Vou rolar de rir com as reações dele. Eu te conheço. Sua transparência é insustentável. Você não tem idéia do quanto…
_ Claudia, eu estou muito puta. Eu deveria ter mandado o cara à merda, na hora. Não mandei. Estava louca para te contar, desde o momento em que entramos no carro. Vamos tentar nos concentrar. Pelo que eu entendi, são duas salas, dois instrutores. Ou seja, dá para eu passar 48 horas sem cruzar com ele. Por favor, cale a boca e vamos evitar o assunto. Tudo que eu não preciso, neste puto momento, é perder a classe que eu nunca tive.
_ Pilz, você esqueceu que faremos as refeições juntos?
_ É verdade. Vai rolar aquela coisa de elogiar a comida porque é tudo orgânico e feito com muito amor pela dona Chica que está aqui há anos, que teve 17 filhos e todo mundo acha isso super bonito.
Eu não aguento o peso do pacote. O pacote – explico – é o comportamento que se espera de quem pratica a ioga. Anel no dedo do pé, roupas ‘puxadas’ no estilo hippie, cabelos longos, papo astrologia, papo cristais, incenso, todo mundo falando baixinho como se todo mundo fosse equi-li-bra-di-nho…
Não sei exatamente quem eles pensam que estão enganando.
Surge Renata, com um sorriso no rosto, pronta pata tomar mais 10 cervejas e diz:
“E aí, meninas… Prontas para o jantar? Já fiquei sabendo que mais tarde tem uma cerimônia qualquer! Levantem-se. Vamos lá! Claudia, faça cara de séria e peça pro moço que nos deu as chaves repor o frigobar dos dois quartos.”
Detalhe: Os quartos não tinham números. Eram nomes. Eu jamais vou me lembrar qual era o nome do meu quarto. Krishna, Shiva, Sai Baba ou coisa parecida.
Bom, fomos andando até o refeitório da humildade. É mais ou menos assim. Não basta a comida ser simples. O prato tem que ser azul Duralex, a toalha tem que ser de plástico, os talheres precisam parecer gastos, como os de restaurantes que servem comida por quilo. Enfim, todo o cenário é uma “demonstração” de desapego.
Quando começamos a nos servir, demos de cara com o equivocado e sua esposa “ligada”. Rolou aquela tradicional apresentação.
De repente, num tom acima do normal, forçando uma naturalidade, ele olha para mim e grita:
E aí, Pilz… você está gostando?
Respondi: Não [ com um sorriso no rosto ]
Claudia caiu na gargalhada. Eu continuei sorrindo.
Depois disso, algum fanático resolveu dizer para a Claudia que ela tinha que participar da cerimônia do fogo, porque era um momento mágico, inesquecível, transformador…
Com uma classe incrível, olhar super sereno, Duralex azul na mão, ela vira e diz:
_ Eu não ‘tenho que’ nada. Aliás, ninguém ‘tem que’ nada. Pronto! A frase virou o nosso mantra.
A comida era comum. Os alegres não se aguentam e precisam abrir a boca. “Gente, ninguém pode deixar de provar essa torta de manga com farinha integral e canela. Nunca comi nada igual”. Tudo precisa ser excelente, extraordinário, fascinante.
Entendam. Nada contra as pessoas elogiarem a comida em qualquer parte do mundo. É o tom que faz com que o elogio se transforme num sorriso montado, aqueles que todos fazem, juntos, especialmente para fotografias.
Outro detalhe muito interessante. Os participantes falavam da natureza como se nós fossemos todos moradores de uma cidade de concreto. Como se ninguém nunca tivesse visto uma borboleta.
Nossa Senhora do Constrangimento, rogai por nós, pecadores.

Resolvi conversar com um dos mestres. O sem esposa ligada. Perguntei se eu estava muito distante da tal paz que preenche o lugar quase sempre ocupado por uma eterna sensação de angústia. Ele me disse o seguinte:
_ Silvia, o mundo não andaria para frente se não existissem os angustiados, os inconformados. Estamos todos em busca de respostas. Você traz perguntas. É seu dever. Sua missão.

_ Ah! Não. Dá para trocar de missão? _ Não.
Chamei as meninas e disse: Vamos para o nosso camarote? Cerveja gelada e papo forte.
Amanhã, às 06:30, tem prática e nós não ‘temos que’ nada!

ps: Editei o texto. Pulei a parte do ritual dos Hare Krishna. Dançamos ao redor de um homem cercado de legumes e frutas e ainda fomos obrigadas a jogar arroz na cabeça do cara.