Silvia Pilz
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    puta

    Todo envolvimento sexual é um contrato que envolve dar e receber. Na teoria, manda quem paga. Na prática também. Eu quis explorar o outro lado dessa fantasia, o da mulher que recebe pra dar.

    Respirei fundo por meses amadurecendo essa ideia, e mesmo quando tive coragem, não soube por onde começar. Liguei para um amigo que entende do assunto. Ele cansou de buscar o caminho do altar e resolveu terceirizar sua vida sexual. Desde então, virou consultor no mercado. Conhece as profissionais e acabou virando fonte de referência para os amigos mais íntimos. Contei meus planos e pedi que me indicasse para o próximo que o procurasse em busca de uma ‘mulher da vida’. Ele relutou até perceber que eu estava decidida, quase possuída pela ideia de ser puta por um dia. Eu me impus um desafio, e não me perdoaria se perdesse para mim mesma. “Já aturei tanta coisa de graça. Deixa eu ter o prazer de curtir essa farsa”, disse.

    Passou o tempo, mas não a vontade. Estava quase desistindo quando ele ligou para dizer que um conhecido havia se interessado. Ele não se permitiu descrever o cara, mas me disse que não era dos mais acostumados a consumir esse tipo de prazer. Achou prudente que ambos fôssemos ‘principiantes’. Ele deu meu telefone pro cara e disse que meu nome era Camila.

    O cara ligou. Tinha uma voz empostada, um papo descontraído. Falamos apenas o suficiente e fechamos a noite em quatrocentos reais. Peguei o táxi até o hotel. Mais que medo do desconhecido, o que eu sentia era um puta tesão naquilo tudo. Produzida, sem exagerar no vulgar, me olhei no espelho retrovisor e pensei: esta noite eu me comeria ‘de graça’.

    Dentro do elevador do hotel pensei: Vou voltar e tomar uma dose de qualquer coisa antes de entrar. Não voltei. Subi e, quando o cara abriu a porta do quarto, fiz quase tudo errado. Primeiro, cumprimentei o cara como se estivesse entrando num consultório médico para deixar amostras. Depois, perguntei se ele se importaria em me servir um drinque, e acendi um cigarro. Ou seja, minha puta virou macho e começou a tomar iniciativas. Sexo oral me acalma e me dá prazer. Portanto, foi por aí que eu comecei. Depois, não sei. Pirei. Senti tesão no personagem. Fiz sexo com vontade e de verdade. O desejo de me sentir ‘inesquecível ou imbatível’ era mais forte que eu.

    Não fiz cara de gatinha nem dei reboladinhas. Me recusei a trepar de salto alto. Ele não me pedia nem me impedia de nada. Só dava umas relinchadas quando gozava. A minha razão ficou no elevador. Aquilo era emoção, adrenalina, brincadeira de menina inconsequente.

    Deixei o quarto certa de que o perigo, quando se brinca disso, é gostar. Parece cocaína. Não só gostei como cheguei à rua ainda vestida de puta e me sentindo com quase três metros de altura.

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    moça

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    descaralhados

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    cigarro
    Se praticar sexo é ser livre, namorar no sofá virou uma prisão. Pesquisas que eu não leio afirmam que as mulheres, mesmo as mais independentes [inclusive financeiramente] procuram cavalheiros que as protejam delas mesmas e paguem ao menos parte das suas contas. Normalmente, elas chegam na versão poderosa [o que mais assusta do que atrai, imagino eu], não demonstram fragilidade alguma e se for preciso, até colocam seus paus imaginários na mesa.
    No minuto seguinte, descem do salto e querem ser tratadas como princesas, indefesas. É um comportamento complexo, performático e cheio de mensagens subliminares. É uma espécie de desvio que só a mulher é capaz de decifrar. Mas, que deixa a maioria dos homens confusos e amedrontados. No fundo ou no raso, independentes ou não, as mulheres buscam o conforto desesperador do amor.  E, os homens também.
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    puta

    Posted in: entrevistas, playboy, sexo

    “Pra começo de conversa, não sou garota de programa. Sou puta. Ninguém me paga para passear de pedalinho ou para fazer papel de mocinha em festas de família. Esse tipo de coisa, faço por amor e por amigos, de graça. E, como todo mundo sabe muito bem o que uma prostituta faz, só te cedo parte do meu tempo se você quiser conversar sobre outras coisas.”

    jeans

     

    Foi assim que a minha conversa com Fabi [que não me revelou sua idade nem sobrenome] começou, quando a encontrei na porta de um supermercado em Botafogo, bairro onde ela vive há mais de nove anos, sozinha, num apartamento pequeno e aconchegante, que ela chama de ninho sagrado e de sala de trabalho.

    Não a encontrei por acaso. Um amigo [cliente dela] me deu o número do celular de Fabi e disse que achava que o papo me renderia um bom texto. Efeito Bruna Surfistinha. As pessoas saem do cinema acreditando que a vida de toda puta, protituta ou garota de programa pode render uma boa história. E, pode mesmo.

    Já que não estávamos ali para brincar de descrever fodas caras ou sem preço nem para dissecar traumas de infância, nos sentamos no sofá da sala, abrimos um vinho tinto e começamos a bater papo. Por algum motivo, talvez pela segurança transmitida no primeiro parágrafo da conversa, percebi que Fabi era uma mulher diferente, surpreendente. Desconfiada e sem muitas expectativas, como milhões de outras mulheres e homens que habitam este planeta.

     Fiz perguntas e ela me trouxe respostas.

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    pego

    Mulheres aprendem a simular orgasmos antes mesmo de aprender a gozar. Moderninhas vão me apedrejar, mas eu não vou deixar de falar. Toda mulher sabe simular um orgasmo e faz isso bem, sem vergonha ou pudor. Acontece por inúmeros motivos. É da natureza feminina sentir muito prazer em proporcionar prazer. Para a maioria das mulheres, sexo bem-feito é sexo aprovado pelo parceiro. O orgasmo feminino é mais complexo e não sai fácil. A sexualidade feminina é, desde a infância, um assunto quase proibido. Meninas aprendem que o bacana é sentir vergonha e esconder o jogo. Falar abertamente sobre o assunto é atividade recente. E, apesar de curtirem mulheres com iniciativa, muitos homens ainda consideram ‘atitude’ coisa de mulher vulgar. De qualquer forma, os homens [a grande maioria] caem no conto, por ignorância ou por comodismo. Poucos são atentos aos sinais que o corpo da mulher dá quando ela está prestes a gozar. E, como a mulher sabe simular, fica difícil pro homem saber exatamente onde ele está. É comum, nas conversas sinceras entre as mulheres, ouvir um ‘o que te custa simular prazer e um orgasmo bombástico para fazer ‘sorrir’ o homem que você quer agradar ou impressionar?’. O orgasmo simulado é um mistério, uma arma, um segredo e uma forma de manipular. Às vezes, simular um orgasmo, com direito a respiração ofegante, gemidos, pernas trêmulas e contração da vagina, em ritmo pulsante, pode até ser um meio de realmente chegar lá. Conheço muitas que sentem vergonha do próprio corpo e têm até dificuldade [vergonha] em deixar o homem cair de boca antes de penetrar. Conheço outras que dizem que o cara não gosta de passar a língua por lá. Há também as que se masturbam [escondidas] depois do ato. E as que gozam facilmente. Apesar de já ter simulado vários orgasmos, hoje sou capaz de gozar com um beijo na boca e um bom amasso, desde que uma perna ou um braço esteja me esfregando por lá. São benefícios de uma vida sexual precária e irregular. Quando acontece, o corpo não deixa escapar. Para que os orgasmos sejam reais e não simulados, a mulher precisa esquecer o mundo, relaxar e colocar-se, mesmo que por instantes, em primeiro lugar. De qualquer forma, com o tempo, mais madura, mais segura, mais conhecedora do seu próprio corpo e mais desesperada [meu caso], a mulher começa a se liberar e buscar posições e situações que facilitem as coisas para ela. Demora um pouco, mas a gente chega lá.

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    Há muitas variantes dessa posição, que hoje é considerada a mais simples e apelidada de “papai e mamãe”. Por motivos que eu desconheço, a posição foi injustamente classificada como pouco prazerosa, careta, nada criativa. Tornou-se sinônimo de sexo insosso. Não entendo. Afinal, além da penetração, a posição faz com que o corpo do homem termine por esfregar num ritmo quase perfeito o que ele realmente tem que esfregar e ainda permite beijo na boca, no meio do caminho. Isso é genial. Como nunca fui boa em química, não meto o dedo em fórmulas. Respeito os que as descobriram. Só tomo coca-cola comum, só fumo marlboro vermelho e só pratico sexo com um homem, de cada vez. Sou uma mulher previsível. É tarefa simples me agradar. Sem rodeios e fantasias, tudo que eu admiro e almejo é um básico de primeira qualidade. E, isso é raríssimo de se encontrar. O que determina sexo de qualidade é a química entre os parceiros. Vontade de acertar a gente só tem quando alguma coisa está errada. Estou fora do time das mulheres que fazem curso de strip-tease ou usam brinquedinhos para aquecer o que já deveria estar aquecido. Isso virou um hábito de consumo da classe média, um utensílio doméstico. Perdeu completamente a graça. Passou do ponto. Eu faço parte do time das mulheres que foram feitas para se comer em casa.

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    dose

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    japodebeber

    O melhor do sexo evapora se o ato estiver embebido em álcool. O excesso de bebida afeta a intensidade dos sentidos, compromete o olfato, deixa o corpo anestesiado, preguiçoso. Uma coisa é retardar um orgasmo, sentir que a bomba está quase explodindo e respirar fundo para prolongar [mais um pouquinho] os segundos mais intensos do mundo. Outra coisa é um orgasmo retardado pelo excesso de álcool. Aquele que mais parece um fardo. É uma vitória com pinta de derrota. Homem bêbado se esforça muito para manter-se de pau duro. Mulher bêbada também. A diminuição dos reflexos e a descoordenação motora comprometem o desempenho do organismo. É natural que haja uma diminuição de resposta a estímulos.

    Já passei por situações desesperadoras em que esqueci de mim [coisa que eu faço regularmente] e, mesmo tonta e de boca seca, me esforcei profundamente para fazer que ao menos um de nós [o outro] conseguisse cair depois [e não antes] de gozar. O sexo consciente é mais quente. Te permite sentir o gosto e o cheiro de cada ingrediente. Talvez eu pense assim por ter dificuldades em dosar prazeres. Não sei sentar num bar e tomar apenas dois chopes. Não sei fazer sexo sentindo metade do meu corpo ausente.

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    silvita

    Ele me ligou e disse que estava no Rio, num hotel, em Botafogo. Me convidou para convidá-lo para jantar. Marcamos uma hora e eu estava lá. Surgiu com um sorriso gostoso no rosto. Escolhi um restaurante chamado Lamas, que fica no Flamengo. Quem mora no Rio conhece. Não é aconchegante nem charmoso. É tradicional, tem mais de 130 anos e nunca deve ter sido reformado. Me sinto bem em lugares por onde Philippe Starck nunca esteve. Enfim, nos sentamos do lado de fora, em cima dos barris de chope, onde se pode fumar. Bebemos, fumamos e conversamos. Aquela carioquice estava deixando o moço metade à vontade, metade apavorado. Ele está acostumado a frequentar restaurantes mais sofisticados e, como a maioria, acabou viciado em filas de espera, caipirinhas de lichia, ambientes cronometrados e papos furados. Ali, aos poucos, ele foi se soltando. Eu cruzava e descruzava minhas pernas, me equilibrando naquele barril e torcendo pra não ouvir, tão cedo, um previsível ‘vamos entrar. vamos jantar.’ Eu queria que aquela noite se estendesse, eu queria que ao menos ele me conhecesse, me percebesse sem que eu precisasse abrir a boca pra falar sobre o que é e o que não é real, se eu vivi ou não todas as histórias publicadas aqui. Eu estava cansada das perguntas repetitivas e de convites babacas. Eu só queria uma boa conversa seguida ou não de uma excelente trepada. Tudo o que consegui foi perceber que eu estava sendo minuciosamente observada. E isso foi me deixando cada vez mais excitada. Meus cabelos, meus olhos, os botões do meu vestido, o meu jeito de fumar. Tudo ali estava sendo ‘filmado’. Como são fascinantes e perigosos os homens que só sabem comer uma mulher com os olhos.

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    barmesa

    Era Sexta-feira da Paixão, por volta de nove da noite. Nessa hora, há dois mil e tantos anos em Jerusalém, Jesus já estava em maus lençóis. Eu estava na Praça Tiradentes, de roupa social, relativamente perfumado apesar do calor, e com um ridículo rodinho de pia nas mãos. O rodo não era resultado da minha adesão a nenhuma seita misteriosa de liturgia pagã. Ou talvez fosse. O rodinho de pia era um dos símbolos sagrados da minha religião naquela noite. Minha religião naquela noite se chamava Silvia Pilz.

    Cerca de duas semanas antes disso, Silvia Pilz era apenas um nome assinando uma coluna que muitíssimo me agrada. Um nome sem corpo, ou com todos os corpos que minha imaginação pudesse escolher, e atrelado a uma personalidade bastante forte, textualmente definida.

    O nome se personificou através de improváveis mensagens doces na minha caixa de e-mail, e quando surgiu a possibilidade de escrevermos juntos, decidi que era hora de tomarmos um café para definir os contornos dessa parceria.

    Ela prontamente aceitou, depois que esclareci não ser um psicopata louco que iria persegui-la pela rua. Originalmente jantaríamos no Cervantes, mas em cima da hora ela optou por irmos ao teatro. A peça era Navalha na carne, de Plínio Marcos, encenada no quarto 107 do Hotel Nicácio, um dos mais reputados antros do entorno da Tiradentes. Um lugar onde dez reais e dez minutos são suficientes para qualquer coisa.

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    mac2

    “Estou com 21 anos. Quando eu tinha 17, meu tio Roberto, que vivia não muito longe da casa dos meus pais, costumava me convidar para visitá-lo. Meus pais adoravam o tio Roberto e ainda o adoram, porque nunca suspeitaram de nada. Tio Roberto me dava vinho quando eu ia à sua casa, o que eu achava totalmente fantástico, já que meus pais nunca me deixaram beber uma gota de álcool em casa. Acho que a zonzeira provocada por uma única taça de vinho e o fato de estar sozinha com meu tio [que era um homem atraente,  tinha 36 anos e, na época, era solteiro] me deixava muito excitada. Embora eu tenha ficado um pouco assustada quando aconteceu pela primeira vez, por fim, me encantei pela a idéia de abrir o zíper da calça dele para masturbá-lo, sempre que eu percebia que só a minha presença já o deixava descontrolado. Ele costumava gozar no meu rosto e, depois, começava a passar a mão por baixo da minha blusa e dentro da minha calcinha. Eu nunca tinha tido sequer um namorado de verdade naquela época. Muito embora eu soubesse que tudo estava ‘errado’ e era ‘proibido’, aquilo me excitava e me deixava muito molhada. Até hoje, tenho muita dificuldade em entender a diferença entre errado, certo, proibido e liberado quando o assunto é sexo. Tive meu primeiro orgasmo quando Tio Roberto colocou a mão dentro da minha calcinha e começou a bolinar meu clitóris. Esse nosso ‘segredo’ durou cerca de sete ou oito meses. Depois do meu primeiro orgasmo, eu perdi a linha. A vontade de estar ali só crescia. Numa tarde, ele me desafiou a chupá-lo e gozou dentro da minha boca. Fiquei tão excitada que pedi que me penetrasse. Ele não resistiu. Me beijou na boca, me fez debruçar no sofá, me penetrou por trás e gozou nas minhas costas. Sinceramente, não carrego culpa, traumas ou remorso. Aquilo aconteceu porque de fato existia uma forte atração sexual entre nós dois. O tesão passou. Mas, virou uma das minhas prediletas fantasias. Sempre que me masturbo lembrando daquelas tardes, gozo em poucos minutos.”

    A dona dessa história nasceu e foi criada em Brasília. Poderia ser fruto da minha imaginação. Mas, não é. Hoje, ela vive no interior de São Paulo e estuda Odontologia. Ainda encontra seu Tio Roberto, naturalmente, quando volta à Brasília, para as festas de família.