Silvia Pilz
  • tpm
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    Ao todo, foram quase nove horas de trabalho. Trabalho árduo, sem trégua. A empreitada que trouxe ao mundo Danilo, hoje com um ano e dois meses, foi longa. A mãe, a enfermeira obstetra Laetitia Plaisant, resolveu que seu primeiro filho nasceria em casa – sem médico, sem bisturi, sem luzes brancas, sem cheiro de éter. E assim foi, com a ajuda do marido, da parteira Heloisa Lessa, que tem 15 anos de experiência no assunto, e algumas bacias de água.  Durante as horas intermináveis em que Danilo teimava em continuar no conforto do útero, Laetitia administrava sua dor. Não conseguia se deitar.  As únicas posições em que encontrava algum alívio eram de cócoras ou sentada. Cada vez que tentava se recostar na cama, punha-se correndo de joelhos,  instintivamente. Depois que o bebê, enfim, deu o ar de sua graça, o mistério foi solucionado: o cordão umbilical de Laetitia era muito mais curto do que o normal. “Acocorada ou sentada, portanto encolhida sobre mim mesma, eu, por instinto, diminuía a distância entre o ponto em que o cordão se ligava à placenta e o umbiguinho do Dani. A natureza é sábia”, lembra.

    A cena acima parece coisa do tempo da vovó. E, de fato, é: coisa do tempo das nossas avós, bisavós, tataravós… Só que deveria ser, também, coisa do nosso tempo, segundo os defensores do parto natural, aquele em que simplesmente nós seguimos as regras e o relógio da natureza. Sem pressa, sem controle. “O parto deveria ser um evento médico somente nas situações de risco. Para que cada vez menos se recorra à intervenção cirúrgica, a mulher deve tomar posse de seu parto, saber que seu corpo é perfeito para gerar e dar à luz uma criança”, diz Ana Cristina Duarte, que há quatro anos trabalha como “doula”, uma espécie de enfermeira especializada em acompanhar a mãe nos últimos meses da gestação e no momento do parto. Olhando para as estatísticas, parece mesmo que a mulher brasileira esqueceu como é que se fazia antigamente. Nos hospitais privados país afora, a taxa de cesarianas chega a 80%, sendo que a porcentagem recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 15%. A desproporção entre cesariana e parto normal causa ainda mais arrepios se os números forem comparados a outros países, como o Japão, onde apenas 5% dos partos são cirúrgicos, a Inglaterra, onde as cesarianas ficam em apenas 8%, e os Estados Unidos, onde a taxa é de 25%.

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    brandedbaby
     
    “O problema é que as mulheres da minha geração foram educadas para estudar, trabalhar e buscar independência. Vivo um conflito. Além de tudo, não vejo sentido em ter um filho para deixá-lo em casa com a babá ou na melhor das escolas. Não sei se teria estrutura emocional para aceitar terceirizar a criação do meu filho”
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    freud

    De acordo com o antropólogo carioca Marcelo Ramos, o preconceito faz parte da vida em sociedade. “A inclinação do homem em sociedade é a de rejeitar tudo que lhe é estranho ou não está de acordo com sua visão de mundo, costumes e hábitos”, afirma.

    “Buscar as origens do preconceito, sua história, é correr o risco de se perder num caminho longo demais”. Ele conta que poderia chegar ao etnocentrismo dos europeus, com suas certezas racistas. Mas, para tornar o papo longo demais, Marcelo afirma que em todos os casos, preconceito trata de distância, de diferença e de desconhecimento do outro, seja o afastado de nós ou o que está ao nosso lado e que nos provoca tanto estranhamento quanto o contato com sociedades e culturas exóticas. O trabalho é árduo tanto para se mostrar quanto para se ocultar o que se pensa.

    É essa distância, não apenas espacial, mas principalmente de valores, visões de mundo, hábitos e costumes, entre sociedades e culturas e entre indivíduos ou grupos dentro de uma mesma cultura, que fornece as bases para o preconceito.

    Na busca de uma explicação para existência do preconceito, cabe chamar atenção ainda para o fato de que, na vida social, cada categoria de pessoa tem seu lugar mais ou menos definido, normalmente  a partir das relações de poder e hierarquia existentes. Preconceito aparece muitas vezes como sinônimo de discriminação e intolerância.

    Confessar todos os seus preconceitos não é simples nem confortável. Até mesmo assumir uma posição ou defender uma idéia diante de questões polêmicas pode se constituir num pesado fardo. Desempenhamos um papel social e procuramos, num processo que revela e oculta, agenciar as impressões que transmitimos uns aos outros, sendo o rótulo de preconceituoso, coisa que poucos suportam carregar.

     

    “you´ve got to try to paint yourself as another person” é o que diz Lucian Freud sobre a tela que ilustra este texto.

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    2-2Segundo o antropólogo carioca Marcelo Silva Ramos estamos vivendo uma nova moral: indecente não é mais tirar a roupa e, sim, ter um corpo fora do padrão estético. E, para não ser, digamos, amoral, vale tudo – mas tudo mesmo

    Uma coisa todo mundo sabe: conquistamos o Everest nas últimas duas, três décadas. Só que essa escalada de poder também aumentou os distúrbios ligados à alimentação e a necessidade, artificialmente provocada, de corresponder a um modelo idealizado de mulher. Muitas vezes, mesmo que inconscientemente, desrespeitamos nossa essência para nos transformarmos naquilo que é aceito e admirado.

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    A frase é de Isabela Capeto, a estilista preferida de nove entre dez descoladas brasileiras. Aqui, ela conta como exerce seu poder – o de vestir as mulheres que todo o mundo adora copiar.

    “Vivo correndo e gosto disso. Reclamo mas gosto. Vivo num paraíso caótico. Sou casada e tenho uma filha. Adoro fazer jantares em casa, adoro ir à praia com a minha filha, tomar chope com amigos e ir ao cinema com meu marido. Sou uma carioca absolutamente comum. Corro como louca pra que tudo fique perfeito. Tento dividir meu tempo de forma inteligente. De vez em sempre me atrapalho. Normal, faz parte. Gosto de fazer milhares de coisas ao mesmo tempo. Enfim, sou parte integrante e fiel participante da geração mulher biônica e não consigo me imaginar de outro jeito”.

    Essa é a estilista carioca Isabela Capeto, definida por ela mesma. A moça só esqueceu de dizer que suas criações, sempre coloridas e muito femininas, são objeto de desejo das mulheres mais poderosas do eixo Rio-São Paulo – atrizes, cantoras, fashionistas, toda essa gente que acaba virando referência do que é “moderno”, “descolado” e merece ser seguido. Isabela, de certa forma, desdenha desse poder. Mas é inegável: ele existe. A estilista começou sua carreira há 15 anos, quando se formou na Accademia di Moda em Florença, na Itália. Antes de criar sua própria marca e inaugurar o próprio ateliê, no bairro da Gávea, no Rio, Isabela trabalhou para grifes como Maria Bonita e Lenny. Hoje, ela tem quatro lojas próprias (RJ e SP), 21 multimarcas nacionais e 17 internacionais. Para criar suas coleções, inspira-se em museus e livros. Cada peça é como uma obra de arte: todas são feitas à mão, com bordados, tingidas ou plissadas, com aplicações de rendas antigas, paetês, tules etc.

    A coleção do verão 2011 foi inspirada no artista plástico Robert Rauschenberg (foto abaixo), americano considerado um dos artistas de vangaurda da década de 50 e precursor da pop art. A idéia do reaproveitamento e da utilização de materiais de coleções antigas enfatizam a teoria de Rauschenberg, de que arte e vida não deveriam andar tão separadas. Suas combine paintings usavam toda a sorte de produtos encontrados por ele, ao acaso.

     robert rauschenberg

    O que seria uma peça perfeita?

    Bela, harmônica, condizente. A intenção é deixar a mulher feminina e fazer com que ela se sinta muito bem. Somos aquilo que falamos, que vestimos e comemos. A mulher sempre teve necessidade de se sentir bela e as peças que ela escolhe para vestir são sempre fundamentais (mesmo que muitas vezes, só ela perceba a diferença). Por ser mulher e saber disso, tento fazer o melhor sem perder o real de vista. O caminho que a moda percorre pode ser danoso se não for muito bem cuidado. Se a peça não tem maleabilidade para ir das passarelas para as vitrines e das vitrines para os guarda-roupas, ela pode estar assim, digamos… comprometida.

    Como é saber que se você começar a usar ou divulgar uma peça, boa parte das moças vai te “seguir” sem pestanejar?

    Me lembra meus tempos de adolescente, época em que todos, inclusive eu, se “rasgavam” por uma mochila ou camiseta da Company. O reconhecimento é gratificante, mas não me faz sentir mais ou menos poderosa. O que muda é a dosagem de responsabilidade. O poder é podre. É preciso manter o bom senso. Gosto de saber que faço bem aquilo que me propus a fazer. É bom demais ver gente vestindo peças minhas. É gostoso saber que alguém deseja e admira aquilo que eu criei. Mas essa coisa do poder de manipular a massa é complicada. Na semana passada, me perguntaram o que eu achava de ser “VIP”. Acho que VIP, eu sou para os meus pais, marido e filha. Na minha opinião, esse estrelato relâmpago, supervalorizado aqui no Brasil, é extremamente cafona. 

    Qual a diferença entre moda e estilo?

    Bom, moda vem de fora pra dentro e estilo vem de dentro pra fora. A roupa é um instrumento de comunicação. Se juntarmos as vestes aos trejeitos e à postura de uma pessoa, já temos o básico necessário para decifrá-la ou rotulá-la. Às vezes, a gente se surpreende. Afinal, roupas não deixam de ser armaduras, escudos. Vestir-se pode sim ser um jeito de se esconder. É comum que uma mulher mais careta, por exemplo, se sinta mais poderosa quando “carregada” por uma bolsa da Louis Vuitton. Assim como também é comum ver gente que se arruma horas pra parecer desarrumado. O que você gosta de vestir? Se eu fosse uma peça de roupa, seria uma saia. Adoro saias e bijuterias. Faço o estilo simples. Talvez um romântico despojado.

    O que você veste para se sentir absolutamente poderosa?

    Bom, não sou do tipo que me visto com a intenção de parar o trânsito. Mas, confesso que amei quando vesti um kaftan do Missoni! Me senti o máximo! Usei no meu aniversário, dia 24 de janeiro. (Para quem não sabe, kaftan, não é um espetinho de carne servido em restaurantes árabes. É um vestido longo, meio anos 70. E Missoni é um consagrado estilista italiano).

    Quando você pensa em mulher poderosa, quem lhe vem à cabeça?

    Helena Pêra, a Mulher-Elástico, personagem de “Os Incríveis”. Também me lembro da Samantha, do seriado “A Feiticeira”.