data venia

Um juiz federal me foi ‘empurrado’ por uma amiga casamenteira. Ela me pegou numa fase em que eu não sabia se queria ser uma esposa asfixiada ou uma solteira deslocada. Naquela época, todas as minhas amigas estavam devidamente casadas. Aliás, a maioria ainda está.
Marina me disse que o cara era o tipo perfeito para mim, um cara sereno e tranquilo. _ Sereno? _ Sim, você precisa de alguém estável!

Conheci o cara na festa de aniversário dela, numa festa ‘ambiente familiar’. Vários juízes federais e suas esposas de unhas impecáveis e perfumes insuportáveis. Todos bebendo moderadamente, falando sobre suas viagens pro ‘estrangeiro’ e ouvindo Rod Stewart. Nada ali, exceto eu, estava fora dos padrões.
O cara não era bonito nem feio. Quando o vi pela primeira vez, gostei. Alto, olhos pequenos e nariz pontudo. Usava perfume forte, coisa que eu detesto. Verifiquei a escolha do sapato. Funcionário público, bem remunerado, acessórios errados. Socorro.

Perguntei:

_ Você mora na Tijuca? _ Moro. _ Por que a pergunta? _ Por nada.

_ Tenho uma tia que mora no Grajaú!

Ele puxou da carteira o discurso do bom moço. Separado, três filhos, muito bem resolvido, conservador, até a segunda página, autoridade nacional e coisa e tal. Me mostrou a foto dos filhos. E eu tive que dizer que eram lindos, mesmo achando as crianças horríveis.
O garçom fez a gentileza de manter minha taça de vinho branco sempre cheia. Depois dele se descrever, eu perguntei: _ Você se considera um homem realizado?
Ele disse que sim e, obviamente, me fez a mesma pergunta. Eu, discreta e já numa versão eu contra eu mesma, disse: _ Eu não. Eu quero conhecer o mundo inteiro, eu quero aprender línguas e quero ter contato com culturas diferentes, sabe? E quero ir para a Amazônia, conhecer alguma tribo de índios.

Ele acreditou e nós seguimos conversando. Eu muda, ele contando a vida dele. De repente, ele parava de falar e fazia pequenos interrogatórios detestáveis, do tipo: _ O que seus pais fazem? A minha vontade, nessas horas, é responder: _ Jogam sinuca.

Gente que se diz realizada me apavora. São os discípulos da alegria, são os que gostam de passear no Jardim Botânico aos sábados e adoram fazer planos. Almoçam sempre nos mesmos restaurantes, com o mesmo grupo de amigos. Comem pipoca GG no cinema. Gostam de filmes de comédia e amam dizer que assistiram o Fantasma da Ópera e outros musicais famosos quando foram para Nova Iorque. É uma forma de dizer: Eu não fui só para fazer compras.

Voltando ao tribunal. No dia seguinte, acordei pensando. Eu preciso me interessar por ele? Não, eu não preciso disso. Esse cara vai me levar para rodízios de pizza, com os filhos dele.
Forcei a barra e aceitei sair com o sujeito.

A Silvia kamikaze é forte.
Primeiro encontro!
Ele me leva pro Outback e passa duas horas falando sobre o carro dele.

Já era.

2 comentários em “data venia”

  1. Sério que existe homem assim ? Eu cada dia me sinto mais psicopata , esse mundo definitivamente não é pra mim , vou descer …. quero mais não !!!

  2. Seria cômico se a história não fosse trágica, mas me diverti muito com o roteiro criativo. Parabéns, vc é uma estrela (popstar)!

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