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	<title>Silvia Pilz</title>
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		<title>no pasa nada</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Feb 2012 19:59:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>silvia</dc:creator>
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		<title></title>
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		<pubDate>Tue, 21 Feb 2012 22:49:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>silvia</dc:creator>
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		<title>judas</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Feb 2012 06:22:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>silvia</dc:creator>
				<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[fotos que falam por si]]></category>

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La acción de la obra se sitúa en Esperanza, un juzgado a medio camino entre el cielo y el infierno, donde una abogada pretende reabrir el caso &#8220;del mayor pecador de la historia&#8221;, Judas iscariote.
A lo largo de este proceso van apareciendo entre otros: la Madre Teresa de Calcuta, Satán, pasando por Jesús, Freud, Poncio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.silviapilz.com.br/wp-content/uploads/2012/02/uau.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3661" src="http://www.silviapilz.com.br/wp-content/uploads/2012/02/uau.jpg" alt="uau" width="480" height="603" /></a></p>
<p>La acción de la obra se sitúa en Esperanza, un juzgado a medio camino entre el cielo y el infierno, donde una abogada pretende reabrir el caso &#8220;del mayor pecador de la historia&#8221;, Judas iscariote.</p>
<p>A lo largo de este proceso van apareciendo entre otros: la Madre Teresa de Calcuta, Satán, pasando por Jesús, Freud, Poncio Pilatos, María Magdalena.</p>
<p>La culpa, la misericordia, la libertad, la esperanza, el amor, la lucha entre el bien y el mal, se dan cita en este texto, mezclándose de una forma ingeniosa y sorprendente la comedia, la tragedia, el drama, la farsa y lo tragicómico.</p>
<p>Cada uno de los personajes representa las dos caras de una misma moneda. Ya no hay blanco. Ya no hay negro. Sólo gris. Y ese gris nos plantea un juego a base de preguntas, un desafío al espectador, que es, en última instancia, el que tiene todas las respuestas.</p>
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		<title>renúncia</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Feb 2012 15:31:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>silvia</dc:creator>
				<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[textos]]></category>

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Não querer também é poder.
De repente, abro os olhos e acordo numa versão cultural. Com uma tremenda sede de beber de uma fonte desconhecida. É numa dessas que eu compro um livro que eu sei que eu não vou ler e vou parar no Jardim Botânico, na esperança de que um varal de orquídeas mude minha vida. Minha alma é um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><a href="http://www.silviapilz.com.br/wp-content/uploads/2010/06/janio.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1687" src="http://www.silviapilz.com.br/wp-content/uploads/2010/06/janio.jpg" alt="janio" width="590" height="400" /></a></p>
<p>Não querer também é poder.</p>
<p>De repente, abro os olhos e acordo numa versão cultural. Com uma tremenda sede de beber de uma fonte desconhecida. É numa dessas que eu compro um livro que eu sei que eu não vou ler e vou parar no Jardim Botânico, na esperança de que um varal de orquídeas mude minha vida. Minha alma é um manicômio. Opiniões desencontradas, atitudes disparatadas e crenças inversas. A nítida sensação de que nunca vou aprender a existir. Eu ando, tropeço, me dou rasteiras, me levanto, e ainda durmo, mesmo que no ponto. Desatinada, numa dessas manhãs insanas, me matriculei num curso, na PUC, pra aprender a escrever roteiros. No primeiro dia de aula, a professora passou 80% do tempo explicando quem ela teria sido se não fosse o que é. No segundo dia de aula, eu não fui. Quando o discurso começa com &#8220;naquele tempo&#8221;, eu entro no que eu chamaria de pânico por identificação. É como se meu fracasso estivesse estampado na minha frente. E, por não gostar do que vejo, peço a conta. No pátio da PUC, com vergonha de ter desistido de um curso que nem comecei, coisa que faço com maestria singular, circulei entre os pilotis e estudantes tendo a certeza de que eu não estava certa de nada. Era meu dever voltar pra sala e dar à professora a chance de me surpreender. Era meu dever tentar. Era meu direito partir. Eu entro com a mesma incerteza que saio. Abro e fecho portas com pinta de quem sabe exatamente o que está fazendo. Fujo e finjo. Engano a torcida. Faço parecer que as renúncias não me custam caro. Já não fiz curso de pintura, de fotografia, de história da arte e até de astrologia. Um pouco de tudo e tudo de nada.</p>
<p>Quem diria. Quantas renúncias eu contaria.</p>
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		<title>patrícia araújo</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Feb 2012 20:06:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>silvia</dc:creator>
				<category><![CDATA[entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[marie claire]]></category>

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Cheguei ao apartamento de Patrícia Araújo, em Copacabana, por volta das 18:00h, numa terça-feira. O susto foi grande. Perdi o fôlego. De cara lavada, calça de moletom e camiseta, Patrícia era ainda mais bonita e sensual do que nas fotos que eu havia visto na Internet.
Logo de cara, perguntei qual era o segredo da pele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center">
<p><a href="http://www.silviapilz.com.br/wp-content/uploads/2011/02/hentai.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3650" src="http://www.silviapilz.com.br/wp-content/uploads/2011/02/hentai.jpg" alt="hentai" width="461" height="620" /></a></p>
<p>Cheguei ao apartamento de Patrícia Araújo, em Copacabana, por volta das 18:00h, numa terça-feira. O susto foi grande. Perdi o fôlego. De cara lavada, calça de moletom e camiseta, Patrícia era ainda mais bonita e sensual do que nas fotos que eu havia visto na Internet.</p>
<p>Logo de cara, perguntei qual era o segredo da pele aveludada daquele lindo rosto. Ela responde: &#8220;Água, muita água&#8221;. Patrícia não fuma, bebe socialmente, não usa drogas e se preserva. Neste momento, quem pede água e acende um cigarro sou eu, tentando me concentrar e não me perder de vista.</p>
<p>Educada, delicada e extremamente doce, ela pede desculpas por me receber &#8220;daquele jeito&#8221;. Sim, além de tudo, a moça é modesta. Move-se sem pressa, com a segurança e a determinação de quem sabe exatamente a onde quer chegar. Seus movimentos são todos delicados, sua sensualidade é quase paralisante. É o tipo de mulher que vai ficando mais bonita ao longo da conversa. Exala charme misturado com Angel ou J’adore, seus perfumes prediletos.</p>
<p>Ao longo das quatro horas que passamos ali, o telefone de Patrícia não parava de tocar. Depois de cerca de 15 interrupções, ela perde [com classe] a paciência e desliga o telefone para que nossa conversa não seja mais interrompida.</p>
<p><span id="more-1358"></span></p>
<p>A bela sentou-se no sofá e abriu seu coração, sem medo ou pudor. Por trás de toda aquela delicadeza, uma mulher forte, determinada, direta e divertida. Sarcasmo discreto e na dose certa. Tipo de mulher que não sai do salto e não perde a pose. E que pose.</p>
<p>A sensação de estar ao lado de uma mulher maravilhosa e imaginar um pinto no meio daquilo era excitante e desconsertante. A minha cabeça girava para cruzar os dados. Mas, vamos ao que interessa. Perguntas e respostas:</p>
<p><strong>Maior elogio recebido.</strong></p>
<p>De uma senhora, no elevador. Ela me olhou com um sorriso puro e disse que eu era uma das mulheres mais bonitas que já havia visto. Não contente, ainda disse que eu arrasaria a Raica, modelo, nas passarelas. Elogio de homem não tem valor.</p>
<p><strong>Verdade que travesti é basicamente procurado basicamente por homens que se dizem heterossexuais? </strong></p>
<p>Procuram por uma mulher com algo mais. São curiosos e sentem prazer com sexo anal. Talvez os traços femininos os deixem mais excitados ou menos constrangidos. Todos dizem que esta é a primeira vez que procuram um travesti [ri]. A gente sabe que é mentira, mas finge que acredita para deixá-los mais à vontade. Tem um que toda semana me diz que é a última vez que vem transar comigo. Coitado! Sente-se culpado por ser casado, ter filhos e sentir prazer em ser comido por um travesti.</p>
<p><strong>Explique para os leigos: qual a diferença entre gay, travesti e transexual?</strong></p>
<p>O gay é um homossexual que não tem o desejo de transformar-se fisicamente. Simplesmente se sente atraído por pessoas do mesmo sexo. O travesti busca ressaltar a sua incontrolável feminilidade e, apesar de esconder o pênis, não abre mão dele. É através do pênis que o travesti sente prazer, atinge o orgasmo. O transexual é o travesti depois da cirurgia de troca de sexo.</p>
<p><strong>Quanto você cobra, em média, por programa? </strong></p>
<p>Cobro 500 reais por uma hora. Sem beijo na boca e sem ter a obrigação de gozar. Se eu não estiver inspirada, esta hora se resolve-se em menos de 15 minutos. Eles normalmente já chegam tão excitados que atingem o orgasmo antes do tempo [ela sorri com merecido deboche].</p>
<p><strong>Se não tivesse que fazer programas, faria o que? Tem ou já teve vontade de seguir alguma carreira? </strong></p>
<p>Meu sonho sempre foi ser modelo ou veterinária. Sou louca por animais. Hoje, sonho em ser atriz.</p>
<p><strong>Você pretende fazer a cirurgia de troca de sexo?</strong></p>
<p>Morro de medo. É uma decisão difícil. Conheço várias que perderam a sensibilidade depois da cirurgia e não conseguem mais sentir prazer. Isso sim é aterrorizante. Talvez, para as mulheres seja mais fácil aceitar a vida sem orgasmo. Mas, para quem é homem, isso é inconcebível.</p>
<p><strong>Por que o travesti precisa ter um pau que funcione?</strong></p>
<p>Porque sentimos prazer, ou seja, atingimos o orgasmo através do pau e porque os homens nos procuram por isso. Não somos passivas. Somos ativas.</p>
<p><strong>O que você tem a dizer para aqueles que têm dificuldade em aceitar que vocês existem?</strong></p>
<p>Somos todos seres humanos. Respeitem as diferenças. Elas fazem parte deste mundo cheio de contradições. O que vendo é meu corpo, nunca minha alma. E isso liberta.&#8217; Ainda assim, confessa que quer parar. &#8216;É meu sonho, assim que fizer um pé-de-meia bom. Chego lá!&#8217;, diz isso e ri. Mas a alegria contagiantemente carioca camufla algumas angústias, que ela vai revelando aos poucos. &#8216;A minha maior aflição é saber que represento sexo. Ninguém me pergunta se eu li tal livro, ninguém quer bater papo ou ir ao cinema. Sou sinônimo de sexo e isso me deixa carente por um tipo de amor que não esteja vinculado a sexo ou a dinheiro.&#8217; Quando percebe que o papo está ficando cinza, dá a guinada: &#8216;Por isso, se alguém me leva para tomar uma água de coco na praia e passeia pelo calçadão comigo, leva também meu coração&#8217;, ri, debochada.</p>
<p>Agora sim, a trajetória, a travessia, a pedreira que Felipe enfrentou para chegar a Patrícia. Tem que ser muito macho para ser travesti. Saí da casa dela com esta certeza. E olha que minhas certezas foram quase todas pro brejo naquele dia.</p>
<p>Patrícia descobriu que gostava de meninos com 12 anos, quando um menino da escola, André, lhe pediu um beijo. Ela conta que sempre foi muito feminina e chamava mais a atenção dos meninos do que das meninas na escola e na rua. Tal fato intrigava a orientadora da escola, que vivia chamando Patrícia para conversar. “Eu tinha medo de confessar”, diz ela, como se fosse pecado. “Mas, achei que a intenção da orientadora era me ajudar.”. Aos 13, quando assumiu suas preferências sexuais para a tal orientadora, foi expulsa da escola. “Foi um trauma, maior discriminação já sofrida. Uma facada nas costas. Aquele tipo de coisa que não se esquece jamais”, diz.</p>
<p>Conversou com os pais, assumiu sua homossexualidade e foi integralmente apoiada pelateve apoio integral da família. “A primeira reação do meu irmão mais velho não foi das melhores. Mas, me lembro como se fosse hoje. Meu pai calou a boca dele num segundo, dizendo que eu era filha dele e, que independente das minhas preferências sexuais, ele me apoiaria, sempre”. E, foi exatamente isso que Severino e Terezinha fizeram. Abraçaram o filho caçula e fizeram dele ou dela uma pessoa forte e preparada para lidar com a crueldade de um mundo preconceituoso.</p>
<p>“Minha família me trata com respeito e carinho, tenho um excelente relacionamento com meus irmãos, tanto com o mais velho, Adalberto, como com Maria Cristina, a do meio”. “Sou louca pelos meus dois sobrinhos”, diz ela. E, como toda tia coruja, imediatamente me arrastou para a frente do seu note book para mostrar as fotos dos meninos.</p>
<p>Com orgulho e gratidão, Patrícia afirma que o apoio deles foi fundamental para que ela não se “perdesse” na vida. “Um porto seguro é tudo que alguém precisa nessa vida”, diz. Patrícia nasceu na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, no dia 11 de março de 1982. Até hoje, vive por lá, com seus pais, Terezinha e Severino, numa casa que ela diz ser maravilhosa. O apartamento em Copacabana é o que ela chama de privé, usado exclusivamente para o atender seus clientes.</p>
<p>Com 13 anos, Patrícia começou a tomar hormônios. Que hormônios? Pílula anticoncepcional e nada mais. “Eu nunca tive muitos pêlos pelos pelo corpo. Nunca tive barba nem gogó”, diz. Há quem pense que o pênis do travesti é atrofiado por causa do excesso de hormônios. Pura ilusão. O pênis de Patrícia, por exemplo, mede 21 cm e ela se orgulha do dote. É seu instrumento de trabalho e sua fonte de prazer. E, pelo que diz a bela, os homens buscam travestis com pênis robustos. Como o sexo, com clientes, é mecânico, ela busca satisfazer-se sexualmente através da masturbação e de relacionamentos afetivos que não envolvam dinheiro. Sim, Patrícia se masturba e, como qualquer outro ser humano, se apaixona.</p>
<p>Começou a se prostituir com 18 anos, quando voltou de São Paulo, após romper um casamento de três anos. “Me casei com 15 anos. Era nova demais e fiquei deslumbrada. Meu marido era mais velho, tinha 40 anos, era apaixonado e ciumento”, conta. “Mas, me apoiou muito. Chegou até a ajudar a minha família”. Foi em São Paulo, patrocinada por ele, que Patrícia fez suas duas cirurgias plásticas. Nariz e silicone nos seios. Ela conta que se acostumou com a boa vida e que, ao se separar do marido, encontrou na prostituição a forma de pagar suas contas e tentar manter seu padrão de vida.</p>
<p>Patrícia cuida muito bem de sua saúde. Não abre mão do uso da camisinha e vai ao médico com frequência. “Tenho uma médica, clínica geral, que me acompanha desde 2002. Confio muito nela”.</p>
<p>Convidada por clientes que ela carinhosamente chama de namoradinhos, Patrícia já foi a Paris, Milão, Beirute e Londres. “Um deles era xeique árabe”, conta. “Aliás, foi ele quem me deu meu primeiro apartamento”, diz.</p>
<p>O psicanalista Sérgio Zaidhaft, especializado no atendimento a transexuais [homens que concretizam a mudança de sexo, extirpando o pênis], atribui a exclusão do travesti do mercado de trabalho &#8220;à nossa dificuldade em conviver com alguém que questione os costumes&#8221;. Segundo Zaidhaft, o travesti fascina e assusta por ser &#8220;a explicitação da ambivalência que todos nós temos&#8221;. Ele conta que, não raro, transexuais que concretizam a mudança de sexo acabam sendo abandonados por seus parceiros. O travesti, não. Para o psicanalista, o travesti é uma fantasia manipulável, &#8220;que se torna mulher sem abrir mão de ser homem&#8221;.</p>
<p>Que a nossa sociedade é preconceituosa, todo mundo sabe. Que o mercado de trabalho é concorrido, também. E poucas pessoas conhecem tão bem essa realidade como as travestis, que enfrentam um mercado de trabalho concorrido com as chagas do preconceito. As travestis que procuram trabalho no mercado formal devem saber de saída que dificilmente ganharão tão bem e tanto como no mercado informal em que boa parte está inserida. Mas ao menos isto não vale somente para as travestis, já que a prostituição também rende muito mais para os homens e mulheres não transgêneros que se prostituem.</p>
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		<title>consertos e concertos</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Feb 2012 13:32:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>silvia</dc:creator>
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Sua oficina mudou-se recentemente do subúrbio industrial de Bonsucesso para Jacarepaguá. Mas o mecânico Alexandre Louzeiro Ribeiro continua suando a camisa, com as mãos sujas de graxa, entre carros com as tripas viradas pelo avesso. Ele é dono da Rio R134, oficina especializada em consertar ar-condicionado de automóveis. O nome soa estranho, mas faz sentido. [...]]]></description>
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<p>Sua oficina mudou-se recentemente do subúrbio industrial de Bonsucesso para Jacarepaguá. Mas o mecânico Alexandre Louzeiro Ribeiro continua suando a camisa, com as mãos sujas de graxa, entre carros com as tripas viradas pelo avesso. Ele é dono da Rio R134, oficina especializada em consertar ar-condicionado de automóveis. O nome soa estranho, mas faz sentido. Chama-se Rio, pela cidade encalorada onde mora sua freguesia, e R134, por ser esta a sigla de um tipo de gás de refrigeração inofensivo à camada de ozônio. A mecânica tem três funcionários. E o proprietário também pega pesado no batente. &#8220;Às vezes, durmo na oficina&#8221;, diz Ribeiro, que tem 37 anos. A sua semana de trabalho entra sábados adentro. É só nas horas de folga que ele veste o smoking. Para tocar violino na Orquestra Filarmônica do Rio de Janeiro.</p></div>
<p>As duas vidas de Alexandre Ribeiro raramente se cruzam. Mas como a Rio R134 oferece o serviço de retirada e devolução dos carros que conserta, houve há pouco um desses cruzamentos. Numa tarde, ao fazer a entrega de um automóvel, ele foi paramentado para seguir direto a um palco de concerto. O cliente, ao ver o dono da oficina de smoking, quis saber se ele ia a uma festa a fantasia.</p>
<p><span id="more-3223"></span></p>
<p>Nessas ocasiões, a resposta de Ribeiro pode mudar os hábitos de quem faz a pergunta. Foi o que aconteceu com o empresário José Roberto de Souza Santos, que é colecionador de carros antigos e costuma deixar nas mãos do músico tanto sua frota de transportes como suas relíquias automobilísticas. Ele achou que era brincadeira, quando soube que o mecânico era violinista da Filarmônica. &#8220;Só acreditei quando fui ver o Alexandre tocar num concerto. Aliás, foi através dele que descobri a música clássica. Hoje, fico muito satisfeito quando penso que, graças a ele, levei meu filho, Thiago, de 5 anos, para assistir pela primeira vez à apresentação de uma orquestra.&#8221; Souza Santos agora torce para que o filho se anime a aprender um instrumento, em vez de tocar só botões de videogames.</p>
<p>Ribeiro, que nasceu em casa de músico, diz que foi &#8220;vidrado em carros&#8221; desde pequeno. Profissionalizou-se aos 18 anos, quando o pai de um amigo ofereceu-lhe &#8220;a oportunidade de trabalhar num ferro-velho&#8221;. Daí para a frente, passou por várias oficinas. Em todas elas, fazia o mesmo acordo: sair mais cedo nos dias de ensaio. O pacto sempre foi respeitado pelo patronato.</p>
<p>Quando ele próprio se tornou patrão, o pacto se inverteu. Seus empregados viraram claque do violinista. Nem sempre devido à música. Moisés da Silva Lima, mecânico de refrigeração, que está na Rio R134 há um ano, diz que Ribeiro, além de contratá-lo, acolheu na oficina seu irmão, de 32 anos, que morava nas ruas. &#8220;Meu irmão sofre de alcoolismo&#8221;, diz Silva Lima, &#8220;e o Alexandre trouxe ele aqui para dentro e saiu em busca de uma clínica especializada, que pudesse ajudá-lo a recomeçar a vida.&#8221;</p>
<p>Embora lidando com automóveis de segunda a sábado, Ribeiro se considera, &#8220;no fundo&#8221;, violinista. &#8220;Se uma oportunidade interessante surgisse, largaria tudo e viveria para a música&#8221;, diz. A oficina é seu ganha-pão. Ele diz isso sem desprezo: &#8220;Tenho orgulho do que construí. Mas nada se compara à música&#8221;.</p>
<p>Ele começou a arranhar as cordas do violino aos 11 anos, como castigo por não ir muito bem na escola. O pai, Amélio Ribeiro, que está com 68 anos, obrigou o menino a estudar o instrumento. &#8220;Naquela época, enquanto meus amigos jogavam futebol, eu estudava três horas de violino por dia, muitas vezes chorando. Hoje, choro se me deixarem longe dele&#8221;, lembra.</p>
<p>O primeiro professor de Ribeiro foi o pai. Mais tarde, Amélio contratou professores particulares como José Alves, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ribeiro só estudou até à 7ª série do 1º grau. E nunca pensou em fazer o Conservatório. Segundo o pai, Alexandre era rápido, apesar do temperamento dispersivo. O filho, ao contrário, se tem na conta de um esforçado. &#8220;Nunca fui ligado em esportes, porque a música exige muito tempo e estudo&#8221;, diz ele. Aos 13 anos, encarou seu primeiro concurso, na Orquestra Sinfônica Jovem do Teatro Municipal. Passou. Numa orquestra como aquela, um terço dos instrumentos costuma ser de violinos. Ao se ver na orquestra, acompanhado por outros 70 músicos, tomou gosto pela coisa. &#8220;Foi ali que eu realmente abracei a música, e jamais me separei dela&#8221;, diz.</p>
<p>O sergipano Amélio Ribeiro sempre deixou claro para os filhos que, enquanto estivessem em sua casa, seriam obrigados a tocar um instrumento. Sua filha Elisa Cristina tocava violoncelo. Escolheu-o por motivos essencialmente práticos: &#8220;Comecei com piano. Mas como piano não se carrega e de violino eu já estava cansada, acabei me apaixonando pelo violoncelo. Toquei dos 12 aos 19 anos&#8221;. Ela relata que, como perderam a mãe logo na infância &#8211; Alexandre, com 3 anos, ela, com 5 -, os dois acompanhavam o pai nos ensaios e concertos. &#8220;Vivíamos brincando entre as cadeiras. O Municipal foi nosso playground. Meu pai sempre foi tão vidrado em música, que acabou não percebendo a paixão que Alexandre sempre teve por carros.&#8221; Ao se casar, Elisa largou a música.</p>
<p>Amélio conheceu a mãe de Elisa e Alexandre, Carmelina Louzeiro, no Seminário Arquidiocesano de São José, onde passou oito anos. Lá, no Conservatório de Música, estudava violino e viola. Sua intenção era ser padre. Largou a batina pela piauiense Carmelina, enfermeira do Hospital Servidor do Estado. &#8220;Quando nos conhecemos, ela vivia num convento, daqueles que, na época, recebiam moças solteiras vindas de fora&#8221;, ele recorda. Do Seminário, Amélio foi trabalhar no Banco Nacional de Minas Gerais, por cinco anos. Ficou viúvo em 1974, e só se casou novamente em 1991, com Elisabete Schmidt Ribeiro. Ela também se casou com o violino e agora integra a Orquestra do Conservatório de Niterói.</p>
<p>Amélio tocou na Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a regência do maestro Isaac Karabtchevsky. Viajou, em turnês, pelos Estados Unidos e pelo Canadá. Recorda, com orgulho, de uma temporada com Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Miucha, no Canecão, nos anos 70. Aposentou-se pela Orquestra Nacional Brasileira, tocando viola, e hoje recebe 3 000 reais por mês. Ainda se apresenta, por prazer, na Filarmônica, ao lado do filho.</p>
<p>A Filarmônica, fundada em 1978 pelo maestro Florentino Dias, que até hoje rege a orquestra, tem setenta músicos e o diploma de utilidade pública, como entidade sem fins lucrativos. Como não tem vínculos com o Governo, depende de patrocínio privado. O maestro sabe que a maioria de seus músicos tem outros empregos. &#8220;Meu sonho é poder pagar aos músicos um salário justo, para que eles possam se dedicar exclusivamente à música&#8221;, diz. &#8220;Alexandre é um excelente músico. Seria um sonho vê-lo com as mãos longe da graxa.&#8221;</p>
<p>O maestro, empenhado em divulgar a música entre os cariocas, conseguiu que a Filarmônica fizesse concertos em praias, colégios e condomínios. Florentino Dias é um devoto dos concertos ao ar livre, sobretudo em bairros carentes. Há seis anos, inaugurou na Rocinha a série &#8220;Concertos em Favelas&#8221;. Em seguida, tocou também na quadra da Mangueira, com a bateria da escola de samba. O cd Filarmônica na Rocinha, gravado ao vivo, saiu em 2000.</p>
<p>Alexandre Ribeiro estava lá. &#8220;Subimos em dois ônibus, para uma quadra no alto do morro. O palco estava devidamente armado, mas não tínhamos público. Nem mesmo um curioso para contar a história. Conforme começamos a afinar os instrumentos, às três da tarde, suando e vestidos a caráter, a platéia foi surgindo e, ao final do concerto, estávamos, enfim, gravando um CD ao vivo, com um público decente. A música foi penetrando a Rocinha, as vielas, as casas. Perceber a aproximação do público foi emocionante.&#8221;</p>
<p>Marcante mesmo foi olhar para o alto e avistar um rapaz, sentado numa laje, de fuzil em punho, ouvindo a &#8220;Valsa das Flores&#8221;, de Strauss. No final do espetáculo, a caminho do ônibus, crianças começaram a abordá-lo. Queriam ver o instrumento, tocá-lo. &#8220;Não pude deixar a oportunidade escapar&#8221;, lembra Ribeiro. &#8220;Me ajoelhei, ensinei como é que se posicionava o instrumento e deixei que eles sentissem o som do arco tocando as cordas.&#8221;</p>
<p>Foi daí que Ribeiro tirou a idéia de dar às crianças do morro a chance de achar uma flauta, um fagote ou um violino mais atraentes que uma arma. Combinou com o maestro e, num concerto no Morro do Cantagalo, as crianças puderam invadir o palco, durante a última peça, aproximando-se dos músicos e instrumentos. Ele já viu a mesma cena de outro ponto de vista. Um dia, depois de um concerto no Municipal, foi à beira do morro de Santo Amaro, no Catete, tomar uma cerveja. Estava de smoking, com o estojo do violino debaixo do braço. Foi interpelado por moradores. Armados, queriam tirar a limpo o que levava na caixa. Ele conta, rindo, que precisou abrir a caixa e mostrar que se tratava de um violino, feito em 1925. Não bastou. &#8220;Os sujeitos me perguntaram se eu sabia tocar aquilo e eu disse que sim, que era músico e que estava vestido daquele jeito porque vinha de um concerto no Municipal. Um deles me olhou sério e disse: &#8220;Então, toca&#8221;. O músico ficou sóbrio na hora, atacou de Eu sei que vou te amar, de Vinicius de Moraes. O pessoal do boteco não queria mais que ele parasse. Provou que com a arte se pode salvar a vida.</p>
<p>Ribeiro está acostumado a audiências informais. Toca em festas e casamentos. Além de reforçar a renda, admite que se diverte ao tocar sem o peso da orquestra. &#8220;Eu penso que estou divulgando o trabalho e não desvalorizando o músico ou a música clássica&#8221;, esclarece. Ganha 100 reais num casamento na Candelária. Não seria pouco? &#8220;É o mesmo que ganho em dias de ensaio e de concertos&#8221;, informa.</p>
<p>Ele faz parte da Igreja Evangélica Sara Nossa Terra, na Ilha do Governador. Há quase dois anos freqüenta os cultos. Acha que, desde então, está mais estável, tranqüilo e próximo de Deus. O pastor Jonas Luiz da Silva, de 52 anos, considera a vinda do violinista um presente para a igreja. &#8220;A música é divina e eu sempre orei pela chegada de um violino que pudesse incrementar nossa banda&#8221;, afirma.</p>
<p>O pastor começou a Sara Nossa Terra da Ilha do Governador fazendo reuniões em sua própria casa, em 1999, com apenas vinte pessoas. Hoje, congrega mais de 3 000 fiéis. As músicas da banda da igreja são compostas pelos fiéis. O pastor Jonas da Silva é biólogo virologista. Trabalha para a Organização Mundial da Saúde, no Centro Pan-Americano de Febre Aftosa.</p>
<p>Foi na igreja que Ribeiro se encantou com Alessandra Oliveira e Sousa, com quem se casou, em janeiro do ano passado. Ela abriu mão do ofício de fisioterapeuta para ajudar o violinista na administração da Rio R134. &#8220;Para não largar de vez a profissão, trabalho dois dias por semana com fisioterapia, numa casa para recuperação de idosos&#8221;, ela conta.</p>
<p>Fora dos consertos e concertos, Ribeiro descansa tocando jazz. &#8220;Adoro improvisar&#8221;, diz. &#8220;A partitura, de certa forma, limita a criatividade do músico, faz ele esquecer de brincar com o instrumento.&#8221;</p>
<p>Como Ribeiro, Astrogildo de Almeida Reis Filho é violinista. Ele tem 69 anos, e vinte de Filarmônica. Sempre incentivou o colega a participar de concursos para orquestras mais prestigiosas, como a Sinfônica Brasileira ou a do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Mas reconhece que o número de músicos clássicos disponíveis é maior que o de vagas para tocar profissionalmente. Para seus ouvidos, Alexandre Ribeiro é um músico talentoso, que não teve maiores chances por causa do tempo que dá à oficina. E aproveita para elogiá-lo como mecânico. Revela que, na Rio R134, resolveu um problema que o perseguia há tempos, &#8220;um barulho chatinho que nenhuma autorizada conseguia descobrir de onde vinha&#8221;. Não é para menos. Como diz Astrogildo, &#8220;mecânico com ouvido de músico não se encontra em qualquer canto&#8221;.</p></div>
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		<pubDate>Fri, 27 Jan 2012 01:39:57 +0000</pubDate>
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