maria filó

Saio de casa e me deparo com um morador de rua dormindo na calçada. Meu coração não dispara. Para mim, aquele ser humano não representa nada. Aliás, me deixa até meio puta. Coloco a culpa no prefeito, no sistema ou tento me convencer de que aquilo é carma – ou karma – e que nada acontece por acaso. Nada é mais confortante do que as leis do espiritismo. Aquele sujeito está ali porque numa vida passada ele foi uma pessoa má [ é uma piada ].

Levo meu filho para uma escola particular porque finjo acreditar que a educação da geração dele é o futuro do país. Minto. Refiro-me ao futuro dele, já que ignoro a realidade das crianças que estudam em escolas públicas e não terão a chance de trabalhar na Ambev [ a seita ].

Entro no meu carro [ aquela coisa espaçosa, com uma TV no painel ] e, no trânsito, quando me deparo com um ônibus, cheio de gente espremida, grito:

_ Junior, presta atenção no que a mamãe vai dizer! Se você não estudar para ter uma boa profissão e ser “alguém na vida”, pode ser que você tenha que enfrentar um ônibus desses, meu filho. Olha bem. Todo mundo de pé. Ninguém tem plano de saúde e ninguém nunca viu o Mickey.

Junior olha, ignora e continua a jogar qualquer merda no Iphone da mamãe.

Continuando…

Ela tira o smartphone das mãos de Junior e liga para melhor amiga, que é sua massoterapeuta. _ Carla, 

Sou uma mulher realizada. Faço caridade em um centro espírita que fica perto da minha casa. Doação de roupas e brinquedos. Junior, obviamente, tem brinquedos que ele chuta pela casa. E, quem guarda, é a empregada, ou melhor, a secretária.

Meu marido é VP de uma grande empreiteira. Adoramos metros quadrados vazios, decorados por um arquiteto da moda e estantes repletas de livros nunca lidos. Recebemos amigos e conversamos sobre nossos filhos, sobre políticos corruptos e até sobre esses filósofos modernos que falam palavrões. Faço parte de 234 grupos do WhatsApp.

Sou tão original quanto um lago de carpas que decora a recepção de um prédio comercial.

_ Carla?

Ligação caiu. Acabou o monólogo.

4 comentários em “maria filó”

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