o falso desapegado

O falso desapegado é um sujeito frustrado que se faz passar por desapegado. Frequenta restaurantes baratos, despreza quem valoriza conforto e luxo, vive num cubículo e se declara plenamente satisfeito, ao lado de sua namoradinha intelectual, que dá aulas particulares de história.

Ah! Ele não compra cigarros. Compra seda e tabaco. Confecciona seu próprio cigarro. Frequenta botecos em Botafogo, por exemplo. Boteco “raiz”.

Parte do discurso [ porque o discurso é extenso pra caralho ]:

_ Não preciso de muito para viver! Sou uma pessoa simples! Não suporto gente fútil! _ Opa, amigo! Cuidado com o que você não suporta! [ Se eu te der uma Moët & Chandon, você bebe bem, não é pessoa simples? ]

Com o passar do tempo, percebe-se que o falso desapegado usa esse discurso como escudo. Apesar de não precisar de muito para viver, ele é vaidoso, orgulhoso e se sente menor quando está cercado de pessoas que não vivem o mesmo personagem que ele.

Isso fica claro quando o falso desapegado se defende sem que ninguém o tenha atacado ou quando seus olhos brilham diante de uma Harley, por exemplo. No fundo, falso desapegado odeia e ama gente ‘com condição’.

É inseguro e oscila. Em alguns ambientes, sente orgulho em dizer que a mãe é manicure. Em outros, tem receio. Está sempre na defensiva. Chega a ser arrogante. E, normalmente, não tem senso de humor. Leva tudo pro lado pessoal. É egocêntrico e se considera um intelectual.

Já tive um amigo assim. Um dia, eu disse que tinha certeza que ele detestava usar perfume do Boticário e que só os comprava porque eram mais baratos que os importados.

Disse isso porque o cara adorava se cuidar, tratar dos cabelos, da barba, enfim, se preocupava muito com sua aparência. Por mais que comprasse suas roupas em lojas populares, ele se preocupava em vestir-se bem. Levava horas montando o look do hippie sujinho.

Bom, perdi um amigo. Falso desapegado virou um monstro. Não gostou da brincadeira. Esse é o tipo do sujeito que me ama hoje e, amanhã, me chama de coxinha e acaba comigo nas redes sociais. #elitebranca #fascista.

Faço uma aposta. Ofereça ao falso desapegado um apartamento em Paris.  Se ele negar e disser que está bem aqui, levando sua vida simples, me procure. Eu arranco meia dúzia dos meus dentes.

 

 

 

estrogonofe

Em qualquer empresa grande – no job description dos diretores – existe o item ‘aproximação dos funcionários que estão abaixo de você’. Isso envolve tentar decorar os nomes das esposas e filhos, fazer de conta que você realmente se importa com a família deles, falar_com naturalidade_ sobre assuntos como terapia, educação dos filhos e viagens pitorescas para Campos do Jordão, Cabo Frio, Disney, Nova Iorque o os cacetes.

Vale almoçar com eles _ uma vez por semana_ no refeitório e, uma vez por mês, escolher alguns funcionários e convida-los para jantar em sua casa. O gerente se sente prestigiado e rende mais no trabalho. Alguns chegam a pensar em chamar o chefe – o diretor – para ser padrinho do filho que está por vir.

“Puta que me pariu, como dizer não?”

A mulher do diretor já tem seu script pronto. Durante o jantar fala das crianças, da escola, dos preços de tudo que vale a pena comprar “lá fora” e diz que o marido não tem tempo para nada e que tudo acaba sobrando para ela. Neste momento, todas se identificam e vibram.

A minha presença é importantíssima para eles. Faz parte do meu trabalho deixa-los felizes. Não posso demonstrar minhas vontades ou falar o que me vem à cabeça, assim, sem medir consequências. Não posso olhar para a mulher que está sentada ao meu lado e dizer: _ Por que carregar tanto no perfume, moça? Isso altera o olfato, interfere no paladar e no gosto da comida.

O cardápio é sempre exótico. Normalmente, alguma receita da Nigella Lawson ou semelhantes. Aqui, nos deparamos com duas possibilidades:

Possibilidade 1 – A empregada, Nilza, que trabalha para o casal há anos ‘dá conta de tudo’. Frase da anfitriã: “Eu não vivo sem a Nilza. Dispenso o Marcos mas não deixo a Nilza sair de casa, de jeito nenhum”. [risos e mais risos ]. O anfitrião ouve e vem com um sorriso no rosto e fala pronta: “Trabalho o dia inteiro e ainda tenho que ouvir isso, amor.”. Todos acham muito graça e se identificam. Como são patéticos e felizes. Eu, como convidado, já estou fumando um cigarro na varanda. Marca nova. Chama-se Foda-se, da Philip Morris.

Possibilidade 2 – A anfitriã, Monica, inspirada em programas de culinária do GNT e nos filmes de Hollywood em que a mulher fica de avental, na cozinha, lindíssima, com uma taça de vinho na mão, fazendo todo o jantar, resolve se incorporar este personagem. Ela adora cozinhar e receber visitas. Brincar de ser Rita Lobo. No entanto, a criadagem continua em cena. Nilza é o antigo Batista do Claude Troisgros. As esposas dos gerentes ficam ao redor, interessadas na receita. Ficam encantadas com a cozinha toda equipada e falam sobre os aparatos. “Olha, esse transformador de tudo em espaguete é sensacional. Vale super mega a pena! Você faz espaguete de cenoura, de abobrinha! E anula o carboidrato”, diz uma das convidadas, estilo magra, anoréxica. Penso: Poor kids!

Enquanto todos degustam vinhos, eu bebo uma Heineken. As músicas variam muito. Normalmente, o som é discreto. O volume depende da disposição dos cômodos. Nenhum convidado deve ouvir o som do quarto da sogra de Marcos, que não dispensa a novela e não se sente à vontade em participar do evento. Na verdade, ela é dispensada do jantar. Os mais velhos, que estão beirando os 80 ou 90, normalmente ficam isolados ou são montados – colar e brinco – e aparecem somente para cumprimentar o pessoal e ouvir os falsos “Nossa, como a senhora está bem”. O casal revela a idade da senhora. Os convidados ficam es-pan-ta-dos. Monica ou Marcos dizem que ela é lúcida, ouve bem e tem até amigos no Facebook. Algum retardado certamente solta um: _ Ela está melhor que a gente!

E então, começa o papo do como envelhecer bem. Momento perfeito para outro cigarro.

Um começa a dizer que parece mais jovem que o outro e essa chatice vai tomar pelo menos uns 15 minutos de conversa. Monica, muita simpática, me chama e diz: “Pode fumar aqui dentro!” Eu digo: “Prefiro fumar aqui fora. Assim não tenho que me preocupar com para que lado o vento está levando a fumaça.”

Bom, quando termino de fumar e volto para mesa o assunto é “Nós estamos tentando melhorar a alimentação lá em casa. Cortamos refrigerantes, substituímos o arroz comum pelo integral, usamos quinoa nas saladas. Foi a Bel, outra convidada, que nos indicou a Marisa, nutricionista. Ela é ótima porque ela faz o cardápio de acordo com aquilo que a gente gosta de comer, sabe?”.

E eu, calado, penso: Olha o que o mundo fez com a cabeça dessa gente. Precisam de uma nutricionista para compor uma dieta balanceada. Aliás, se tem uma coisa que eu não suporto é mulher escrava de balança. Normalmente, são meio retardadas, contam calorias e estão sempre sorrindo.

É chegada a hora.

Monica serve o cordeiro recheado com qualquer coisa que eu ouvi e não entendi, risoto de aspargos e uma salada de rúcula com manga. Acreditem. Existe um site que diz quais os pratos que estão na moda. Achei que fosse bobagem. Não é. Atualmente, servir um estrogonofe, é considerado brega. Pensei: Se Monica tivesse optado por um tradicional estrogonofe de filé mignon com batata palha, ela não imagina o sucesso que faria.

O nome disso é autenticidade, coisa que ninguém ali tinha.

Estrogonofe representa simplicidade, um dos mais importantes e, às vezes, subestimado conceitos da vida. Digamos que o estrogonofe com charme seria um prato acolhedor e uma viagem no tempo. Afinal, ele já esteve em alta!

O cordeiro é considerado sofisticado. A porra do pato também. Eu não como nenhum dos dois e me satisfaço com a rúcula e risoto de aspargos. Para proporcionar um orgasmo coletivo, peço para Nilza, um ovo frito. Pronto! Acabo de me tornar o cara mais bacana da face da terra. E o ovo frito entra pra história.

Eu não sou esposa nem gerente. Sou o vice-presidente.

gerente

 

Eu já fui trainee. Pra quem não sabe, o trainee é um estagiário melhorado, apesar de quase sempre a maioria se achar bem mais que isso. A empresa aposta no trainee, e ele acredita. Cursos, treinamentos e estágio em diversas áreas da empresa, para a úlcera de quem os recebe. O trainee passa por todas as áreas da empresa, exceto aquelas que ninguém quer: limpeza e copa, por exemplo. Trainee ouve um monte de besteiras e fala uma porção de outras. Faz relatórios e se reporta aos diretores da empresa. Basicamente, presta contas do que está aprendendo, sempre com uma pitada de inteligência acima da média.

Durante meu período na área comercial, acompanhei a autoridade máxima, um gerente de vendas. Eu ficava com ele o dia inteiro. Participava de reuniões, fazia anotações e tentava me manter calada. Desde o início, percebi que minha presença o perturbava. Normal. Era óbvio que me carregar pra lá e pra cá, sabendo que no final do período eu faria um relatório sobre o que vi e ouvi, era no mínimo desconfortável para ele e constrangedor para mim.

Num fim de tarde, depois de uma reunião, o cara me ofereceu uma carona e eu aceitei. Entramos no carro e ele me pareceu estabanado, meio afobado. Continuei na minha, apesar de saber que homens, principalmente os casados, quando ficam assim, estão excitados. No meio do caminho, ele me convidou pra tomar um chope. O chope era fundamental. Era o início do papo informal, talvez até uma chance de quebrar aquele clima tenso.

Depois de uns três ou quatro chopes, ele começa a fazer perguntas e falar de coisas banais. Começou com o enfadonho passado de vida difícil, do começar do zero, sem pais ricos, um trabalhador ambicioso, assumido. A essa altura eu já tinha decidido manter o ritmo do chope.

Depois, bingo! Partiu para o papo do casamento falido, da preocupação com os filhos e da vida monótona que levava com a mulher. “Gostaria de me separar mas não quero ficar longe das crianças e não tenho grana para sustentar dois lares”. Zero comovida, naquele momento, pensei: Já sei aonde ele quer chegar e vou deixar rolar. Eu não estava me sentindo atraída pelo executivo. Mas, como qualquer mulher naturalmente desequilibrada, senti um prazer sórdido em ver aquele cara [de calça de sarja] tentando me convencer de que ele era alguém na vida.

Conquista é uma arte que toda mulher quer dominar, mesmo que no braço. Eu nunca fui boa nisso. Sou péssima na arte da sedução consciente. Ali, só a sensação de perturbar o indivíduo era maravilhosa. Deve ter sido uma forma de colocar pra fora toda a raiva que papo de vendedor sempre me causou. Entramos no carro, que estava no estacionamento do bar. O gerente me deixou em casa e ganhou um french kiss de presente.

No dia seguinte, na minha mesa, flores do campo [um buquê daqueles bem grandes, cheio de folhas de samambaia] e um CD do Kenny G. Eu não merecia um CD do Kenny G. Muito menos aquele buquê gigantesco. Não mesmo. Era melhor se ele estivesse escolhido um da Alcione.

Tudo que eu queria era engolir uma granada. Enterrei o caso e nada consta no meu currículo. Foi apenas uma péssima experiência sexo-corporativa. Comecei a rezar para que chegasse logo a hora de ir perturbar o pessoal da Contabilidade ou da área de Desenvolvimento de Embalagens.

ps: Jamais enviem buquês com folhas de samambaia para ninguém. It’s weird.

coragem

De uns tempos pra cá, todos se tornaram educados, quero dizer, oprimidos. Ninguém pode brigar com ninguém, ninguém pode reagir, ninguém pode perder a cabeça. Ser reativo não é uma qualidade. É defeito. É sinônimo de descontrole. E ninguém – principalmente no universo corporativo – admira um reativo. O bacana é você ser aquele cara super educado, excessivamente simpático, que dá bom dia até para o poste e controla todas as suas emoções, mesmo que para isso, você esteja medicado.

Todos se tornaram civilizados. É admirável.
Até nas escolinhas é feito um enorme drama se uma criança arranhar um amiguinho.
O que arranhou vai pro banco dos réus e tem que pedir desculpas _ em praça pública _ para o arranhado. Assim, desde cedo, ele aprende a lição, dizem os pais, envaidecidos.

O sintoma agressão tem que deixar de existir e, com o treino, a agressão permanece “controlada”, entre muitas aspas.

Mandou alguém à merda, processo.
Confundiu um ator negro com um garçom, é preconceito.
E o garçom _ a vítima_ não pode nem pensar em meter a mão na cara da celebridade. Tudo bem contraditório, do jeito que eu gosto.

E, para não perder a cabeça, as pessoas se agridem de forma velada, se medicam, leem OSHO, acham que meditam, trabalham 18 horas por dia, bebem pra cacete, se tornam compulsivas sexuais, enfim, buscam válvulas de escape.
Já dominada por essa opressão, que não aconteceu do dia pra noite, a sociedade acata a agressão como grande inimiga e se torna apática.

Porém, isso vai contra a natureza do ser humano e a agressão se torna latente. Por isso, homens e mulheres começam a perder a cabeça porque o vaso de planta que estava do lado direito da varanda está do lado esquerdo, porque o trânsito está lento, porque o carro da frente demorou três segundos para rodar depois que o sinal ficou verde e, por conta disso, começam a cavar pequenas discussões sem fundamento onde eles conseguem extravasar a vontade que têm de enforcar o chefe ou a esposa, por exemplo.
Porque as pessoas têm desejos velados que elas não têm coragem de revelar nem para elas mesmas. E eu não estou falando de psicopatas. Estou falando de pessoas que divulgam o significado da palavra resiliência do Facebook. Essa moda vai deixando as pessoas doentes e criando bombas-relógio.

Mudando o foco.

O ‘resilientes’ não perdem a oportunidade de entrar numa boa discussão no trânsito para colocar parte dessa agressão oprimida para fora, da forma que a sociedade ainda concebe como permitida. E jamais deixam de colocar todo seu ódio para fora quando encontram um post controverso no Facebook.

Porém, durante um assalto, por exemplo, os corajosos se tornam mansos e o lema propagado é o : _ Não reaja! O importante é que você saia vivo. Que nada de mal te aconteça.

É óbvio. O sujeito está armado e você não. E, mesmo que estivesse, sua educação não lhe permitiria sacar uma arma e acertar o peito do sujeito, fosse ele um homem de 34 anos ou um menino de 15. Porque matar é pecado grave. É forte. E tem punição, inclusive divina. Porque só Deus pode tirar a vida de uma pessoa.

Você não teria coragem.
E não me diga: “Ah, eu teria! Com requintes de crueldade.”
Você já foi oprimido. Você não conseguiria.
Você já acha que vai pro inferno se tirar a vida de alguém e… “eu acho que eu não conseguiria conviver com isso, sabe?”

Um muçulmano já come a tua mulher na tua frente e te deixa durinho de medo de morrer.

Agora, coragem para mandar alguém fazer, talvez você tivesse ou tenha. Porque anularam a agressão, mas a covardia continua de pé, patetas.