de smart não tenho nada

Em algum momento você não tem escapatória. Os problemas com a telefonia móvel já não podem mais ser resolvidos pela central de atendimento e você vai encarar a loja mais próxima da sua operadora. Você tenta minimizar o desconforto e se prepara para chegar antes dos outros. Fica na porta de um shopping, junto com os empregados, esperando o segurança abrir as portas do inferno e liberar a entrada da manada.

A telefonia móvel – o lado negro da força – escravizou a humanidade. Independente da classe social, da raça, da religião ou da profissão. Essa multidão de retângulos veio para ficar e não tem manual de etiqueta. Perceba que as pessoas insistem em mostrar vídeos ou fotos. Seja o primeiro banho do bebê, um trecho da festa da tia Odete ou piadas da Internet. Não perguntam se você está diposto a assistir. Metem o retângulo na sua cara e esperam por comentários. Os mais educados não deixam o aparelho exposto, num almoço. A grande maioria faz o oposto. Não consegue dar um passo sem registrar os fatos. São reality shows personalizados.

Não espere um atendimento diferenciado. Você faz parte de uma massa que está emburrecendo a cada dia que passa. Divirta-se. Você e todos os que estão ali, com uma senha na mão, fazem parte da mesma tribo e estão prontos para encarar um daqueles voos noturnos da Gol, com 36 escalas. Você é só mais um cidadão comum, idiota, classe média, adorador do Whatsapp e de milhares de aplicativos.

Na mesa ao lado uma senhora revestida de acessórios dourados e com um perfume forte explica para o atendente, aos berros, que o marido teve um AVC e que ela quer cancelar a conta. O atendente, treinado para não deixar ninguém sair de lá feliz, diz: Se ele é o titular da conta, senhora, só ele pode “estar efetuando o cancelamento da mesma”. A senhora perde a linha e diz que vai colocar a operadora na justiça.

Do outro lado, um cara com os calcanhares de fora e com três aparelhos em punho, discute as vantagens que cada operadora oferece. Existe uma tribo que não se contenta com um telefone. Eles têm vários. Pelo que entendo, parece que sai mais barato. São eles os que perguntam qual a sua operadora antes de perguntar o número do telefone. Eu faço a linha simpática. Converso com o atendente, como se eu estivesse realmente interessada na vida dele, comento sobre a quantidade de pessoas estressadas que eles têm que aturar durante a jornada de trabalho, faço o plano que o cara me sugerir, assino o documento que vai me deixar presa ao plano por pelo menos um ano, pego o telefone rosa flamingos de Miami que a operadora me deu de presente – porque era o único que tinha – e saio. Uma perfeita idiota.

_ A senhora tem certeza que não quer o 7, 8, 9?

_ Não. Esse ultrapassado está ótimo. É vintage.

Olho pro aparelho criado por Mr.Jobs e penso: Parabéns, Steve. Produto nobre. Sonho de todo pobre.

_ A senhora quer capa? _ De jeito nenhum. Acho capas o ó.

_ E película protetora? _ Jamais.

Sem saber usar e sem ter o menor interesse nas facilidades que trazem os aplicativos, aqui estou eu, com um Iphone na mão. Em algum momento, alguém me convenceu de que este aparelho mudaria minha vida.

E eu caí no conto. Pronto!

Eleanor Rigby

Do décimo primeiro andar de um prédio, Flamengo, eu observo as janelas de um outro prédio. São diversas cenas separadas por paredes de concreto.
Vejo uma gorda, de camisola, sentada no sofá, assistindo TV. Ao lado dela, um labrador, deitado _tão gordo quanto ela. Era uma pintura de Lucian Freud.
Vejo um casal arrumando as plantas do apartamento. Coloca a samambaia pra cá, coloca a samambaia pra lá. Pareciam namorados ou recém casados. Ele sem camisa. Um corpo bonito. Um magro com poucos músculos. Ela de short e camiseta. Não parecia o tipo de mulher que se preocupa com o corpo. Tinha pinta de quem jamais se preocupou em fazer exercícios físicos. Era ruiva. Tinha os cabelos compridos e presos num rabo de cavalo bagunçado. Ali, rolava sexo.
Do outro lado, um casal de velhinhos jogando cartas. Um apartamento cinematográfico. A decoração era a mesma desde o dia em que se casaram. Senti vontade de bater naquela porta. De pirar naquele cenário. As cortinas da década de 70.
Trago meu olhar pra mim. Emocionalmente tetraplégica, fumando um cigarro, observando a vida alheia e pensando…
Isso daria um livro.
Por último, vejo uma mulher de meia idade, acendendo um incenso, uma vela e embaralhando cartas numa mesa coberta por uma toalha que mais parecia uma canga. Não era gorda nem magra e fazia a linha hippie. Com certeza, estava esperando alguém _ uma cliente _ para jogar suas cartas de tarô.

Os apartamentos daquele prédio tinham sessenta metros quadrados. Abaixo do casal da samambaia, vivia um ciclista desses que pedalam às seis horas da manhã, de capacete e malhas fosforescentes coladas no corpo. Ele saía às seis, voltava por volta das sete e pendurava a bicicleta _ que ele jamais deixaria na garagem do prédio_ na parede da sala.
Depois de vinte minutos, aparecia de camisa social, calça jeans e um crachá pendurado no pescoço. Era jovem e morava sozinho. Assim que ele saía, chegava a empregada, uma senhora, negra e gorda, que me parecia muito simpática. Ela arrumava o apartamento e passava horas na cozinha. Com certeza, deixava comida pronta para o ciclista. Depois disso, ela deitava na cama do rapaz e assistia TV por uma ou duas horas. Era uma figura.
Às quatro da tarde, ela se levantava e partia. Às quatro, eu deveria ter me levantado para ir para terapia. O ciclista chegava em casa às vinte horas, em ponto. Tirava a camisa social, jogava o crachá na mesa onde ficava o computador, entrava na cozinha e voltava com um prato de pedreiro. Comia com pressa, já checando seus e-mails ou perdendo seu tempo no Facebook. Terminava de comer, levava o prato até a cozinha e voltava para o computador. Se acomodava na cadeira e _ de janelas abertas _ abria o zíper da calça jeans, colocava o pau para fora e tocava uma bela de uma punheta. Já relaxado, ele se levantava, tomava um banho, vestia uma cueca [ estilo boxer ], deitava na cama, ligava a TV e dormia. Uma rotina invejável.
Eu _ neurótica _ pensava: Vai deixar a louça suja? E a toalha molhada, assim, pendurada, de qualquer jeito, na porta do armário?

Comecei a receber dezenas de mensagens da minha psicoterapeuta. Afinal, depois que comecei a observar homo sapiens entre quatro paredes, eu perdi completamente a vontade de falar de mim. Eu já me conheço e me acho um pé no saco.
Desci para comprar cigarros.
Me deparei com o casal da samambaia na banca de jornal. Impossível não reconhecer aqueles cabelos ruivos. Descobri que ela também fumava e era artista plástica. Os dois estavam discutindo. Ele dizia que ser artista plástica no Brasil era uma merda e ela defendia sua classe.
_ A arte transforma. A arte cura. A arte puxa. A arte empurra…
Ela era muito bonita. Tinha uma tatuagem estilo Yann Black nas costas. Ele também era interessante. Tinha um olhar penetrante, uma voz forte e um escorpião tatuado no braço. Todo escorpiano adora ser escorpiano. E eles têm motivo para isso.
Voltei pra casa.
Ciclista estava ganhando uma vizinha. Uma modelo. De cara, pensei que fosse a Guta Ruiz. Não era. Porém, era tão bonita e assustadoramente presente quanto a Guta.
O porteiro a ajudou a largar duas malas e três caixas de papelão no chão. Ela abriu as janelas e saiu. Voltou com algumas sacolas do Zona Sul. Colocou algumas coisas na geladeira e outras no banheiro.
Depois disso, tirou a camiseta e abriu uma garrafa de vinho.
A taça, ela tirou de uma das caixas de papelão.
De sutiã preto e calça jeans, colocou fones no ouvido e começou a arrumar suas coisas. Aquele apartamento _ com certeza_ já estava decorado.
De repente, ela se aproximou da janela e começou a observar sua vista. Enrolou um baseado com maestria.
Era fino e _ provavelmente_ tinha oito centímetros. Acendeu e fumou, tranquilamente, como se estivesse em Santiago, no Chile.

Perdi o sono e resolvi dar uma volta pelo quarteirão. Obviamente, não resisti e resolvi passar em frente ao prédio que eu observava pelos fundos. Para a minha surpresa, encontrei a escatológica obra de Lucian Freud em movimento.
A gorda – de camisola – e seu labrador, ainda mais gordo, estavam na rua, em frente ao prédio. Ela não parecia disposta a levar o cão para passear. Provavelmente descia para que ele pudesse usar um canteiro como banheiro químico.
Continuei caminhando. Na esquina, encostada num poste, estava a bela ruiva, fumando um cigarro e enxugando suas lágrimas.
Que sorte!
Perfeito! Vou perguntar se ela tem fogo.
_ Oi!
_ Oi!
_ Você pode me emprestar seu isqueiro?
_ Lógico.
Depois de acender o cigarro, discretamente, perguntei:
_ Você está bem?
_ Não. Acho que bebi demais e acabei discutindo com meu namorado. Vai passar! Ele _ quando quer _ consegue me fazer sentir a pior das mulheres. A família dele é esquerdista e eles são todos muito radicais. A irmã dele me detesta sem motivo algum. Gente mal educada. Gente que não sabe conversar.
_ Você quer conversar?
_ Quero! Estou longe dos meus amigos, insegura, sem grana.
_ Você é paulista, certo?
_ Certo!
_ Que merda!
Ela riu e me perguntou:
_ Por que?
_ Por amor, você veio parar neste balneário decadente!
Ela deu uma gargalhada e disse:
_ Meu nome é Lia.
_ O meu é Silvia. Eu moro naquele prédio ali, no apartamento 1103.
_ Bom saber! Não tem nenhum barzinho aqui por perto pra gente tomar um chope?
_ Você disse que já bebeu demais!
_ Foda-se!
_ Que assim seja!
_ Deixa eu te perguntar uma coisa: a irmã do seu namorado é feia?
_ É…
_ Explicado.

Para quem se perdeu entre os capítulos, Lia é a ruiva exótica, parceira do escorpiano, artista plástica e dona das samambaias.
Sentamos no Belmonte, Praia do Flamengo, número 300.
Apesar de ter dito que já havia bebido, Lia me parecia sóbria.
Estava de calça jeans, havaianas e com uma camiseta do gato Felix.
Lia lembrou-se que estava sem carteira. Eu tinha cinquenta reais no bolso.
Depois do terceiro chope, Lia resolveu falar sobre imbecilização coletiva e me disse que era fã de Olavo de Carvalho. Depois do quarto chope, vieram as artes plásticas e Adriana Varejão.
No quinto, ela me contou que tinha 32 anos, era católica e devota de Santa Teresinha de Lisieux.
No sexto, ela me contou que conheceu Marcelo _ o escorpiano _ na Barra do Sahy, litoral norte de São Paulo, quando tinha 28 anos.
No sétimo, eu já não estava mais em condições de contar chopes e precisava _ urgentemente_ de uma pausa para fumar um cigarro.
Deixamos a mesa e fomos pro lado de fora do bar.
Cada uma com sua tulipa em punho.
Depois de dar o primeiro trago, Lia olhou nos meus olhos e perguntou:
_ Você me acha atraente?
_ Sim. Atraente e carente [ risos ]
_ Eu tenho uma necessidade ridícula de me sentir desejada.
_ Todos temos.
_ Eu não parei de falar desde que chegamos aqui.
_ Eu percebi.
_ Então, antes de conhecer o Marcelo, eu passei quatro anos com a Debora. Nós estudávamos juntas na FAAP. Ela foi o primeiro grande amor da minha vida. Foram quatro anos intensos. Quando resolvemos morar juntas, o relacionamento foi pro saco.
_ Por que?
_ Ela se tornou possessiva.
_ E o Marcelo?
_ O Marcelo é ciumento. É diferente.
_ E_ pelo visto_ não é preconceituoso?
_ Não. Se é, faz de conta que não é. Eu me apaixono por gente. Ele, por um acaso, tem um pau. Explicar isso para essa gente medieval que insiste em etiquetar-se é um caos!
_ Concordo. Por que você estava chateada quando nos encontramos hoje?
_ Por causa das samambaias que estamos pendurando lá em casa! O Marcelo estuda feng shui e eu acho isso ridículo!
Deixei Lia em frente ao prédio dela. Quando caminhava pela calçada, ela gritou:
_ Eu não esqueci. Aquele prédio ali, apartamento 1103.
Pensei! Minha Santa Teresinha de Lisieux!

No dia seguinte, Lia deixa um bilhete na portaria:

“Minha vida parou.
Eu podia respirar, comer, beber e dormir, porque não podia ficar sem respirar, sem comer, sem beber e sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável.
Se eu desejava algo, sabia de antemão que, satisfizesse ou não meu desejo, aquilo não daria em nada.”
_ Liev Tolstói

Eu peço socorro. Editor, preciso de um assistente. Não estou satisfeita com a Lia que criei e não sei o que fazer com ela. O ciclista está pronto. A namorada é só o começo.
A modelo tem que entrar em jogo. De repente, ela pode resolver marcar uma hora com a taróloga. E o casal de velhinhos_ por enquanto_ joga uma partida de dominó ou cheira uma carreira de pó.
Marcelo, namorado da Lia, que curte feng shui, é arquiteto. Ele vai revolucionar o mercado de grades protetoras. Vai criar grades personalizadas feitas com cabos de aço. Essa coisa deselegante, que faz com que qualquer apartamento pareça um galinheiro, vai ganhar um concorrente.
Além disso, precisamos de mais acontecimentos.
Até o momento, nossa única obra de arte é a gorda de Lucian Freud.

A vida do ciclista mudou. A casa dele também. A namorada trazia quadros, orquídeas. Juntos, eles instalaram um ventilador de teto na sala e um novo aparelho de ar condicionado no quarto. Até as persianas eles trocaram. As antigas pareciam persianas de escritório. Cheguei a pensar que ela fosse se mudar pra lá.
Lembro-me de um dia que os dois discutiram e ela saiu derrubando o que via pela frente. Deixou cair um vaso de flores que ela mesmo havia levado para aquele ninho. Ele saiu atrás, meio desesperado, de camisa social e crachá, atrasado pro trabalho.
A moça_ que eu conhecia não sei de onde_era delicada e intensa.
Depois de 20 minutos, ela voltou. A empregada já estava no apartamento. Ela ajudou a empregada a recolher os cacos de vidro.
Deixou um bilhete na mesa do computador. Saiu e voltou com um vaso novo. Deixou o vaso vazio. Achei poético.
Fumou um cigarro e partiu.

Ele chegou, leu o bilhete, olhou pro vaso mas não pegou o telefone. E eu torcendo para que ela voltasse. No dia seguinte, ele acordou cedo e preparou-se para pedalar. Ele saiu, ele voltou. Tomou seu banho e foi trabalhar. E nada dela chegar. À noite, graças a Santa Teresinha de Lisieux, ela apareceu. Achei que fossem retomar a discussão. Enganei-me. Os dois se abraçaram. Ele segurava o rosto dela e a cobria de beijos, como quem diz: _ Jamais faça isso outra vez! Nesta noite, eles não foram pra cama. Ele sentou a moça na mesa. Arrancou a calça jeans que ela vestia e ajoelhou-se. As pernas dela tremiam e ele prosseguia. Desnecessário descrever aqui o que ele fazia. Levantou-se e beijando-a na boca meteu o pau onde queria.
Bruto e romântico. Um homem apaixonado. Ela parecia uma escultura em movimento.

O edifício _ que se chamava Eleanor Rigby _ pegou fogo no dia 10 de fevereiro de 2015. Ninguém sobreviveu, exceto eu, que era a namorada do ciclista e estava na farmácia, comprando a pílula do dia seguinte.

Antes do incêndio, Yolanda, a obra de Lucian Freud, resolveu livrar seu labrador da monotonia e contratou um passeador pra lá de excêntrico. Uma bicha frenética, designer de sobrancelhas. Estilo nasci na merda, superei todos os obstáculos e não suporto gente que reclama da vida ao meu lado.
Ed era simpático e muito bem educado.
Pelas manhãs, ela passeava com cachorros. Durante a tarde, trabalhava num salão, desenhando sobrancelhas. Fora isso, Ed era vegano e fazia pratos incríveis sob encomenda.
Marcelo, namorado de Lia, vendeu seu projeto de grades de segurança personalizadas [ em cabos de aço inox ] para um escritório de arquitetura quase falido.
Lia_ ainda meio perdida_ resolveu fazer uma mini-horta na área verde do prédio. Com o consentimento da síndica, obviamente.
Isis, a modelo, morreu sem se ver na capa da Vogue do mês de março.
O incêndio começou no apartamento dos idosos.
Motivo: vazamento de gás na cozinha.
A taróloga não teve como prever nada disso.
O ciclista estava no elevador.

ps:
Ed também sobreviveu. Ele estava passeando com o labrador de Yolanda.

jogo de xadrez

 

Fico observando a preocupação dos pais com a educação formal dos filhos. Os valores que o pai, modelo ocidental, neurótico e coisa e tal, passa pro filho, como se fosse um manual. Quantas línguas a criança vai falar, que tipo de esportes vai praticar. Que livros vai ler e que instrumentos vai tocar. Percebo que a intenção dos pais é boa. Porém, tenho a sensação de que parecem estar preparando os filhos para uma espécie de guerra, onde eles terão de se destacar para sobreviver. Onde o outro – o amiguinho – pode ser visto como um futuro concorrente quando a criança for fazer uma prova para garantir sua vaga-mirim em empresas sólidas como a Apple, por exemplo.

Pais não querem que seus filhos sejam comuns ou medianos. Orgulham-se dos que vencem campeonatos de xadrez ou olimpíadas de matemática, dos que tocam instrumentos como violino e violoncelo. Pandeiro só vale se os pais forem alternativos.

Adoram dizer que a criança é muito inteligente e que poderia passar para a turma mais avançada ou próxima série. Desde cedo, a adoração pela pressa. “Mas, a Harvard psicóloga acha que isso pode não ser legal, sabe? Ele ainda não está maduro para acompanhar os mais velhos!”

Eu aprendi a jogar xadrez quando era pequena. Jogava com meu irmão e perdia quase todas as partidas. Ele conseguia se concentrar e calcular as jogadas. Eu só queria movimentar as peças. Sempre adorei o bispo porque ele era o único daquele tabuleiro que podia correr de um lado pro outro, sem obstáculos, como se estivesse patinando no gelo.

Eu não entendo nada de psicologia mas acredito que essa neurose seja uma espécie de projeção misturada com muita preocupação e ilusão de controle. A loucura começa – por exemplo – na supervalorização de um primeiro lugar em uma simples competição de natação, futebol ou qualquer outra atividade que a criança pratique. É um verdadeiro fascínio pela vitória, coisa que para a criança, pode não significar absolutamente nada.

Hoje, tenho consciência de que eu, quando nova, só me esforçava para ganhar as competições de natação para ver meu pai satisfeito. Por mim, jamais participaria daquilo. Pais e mães histéricos, gritando perto da borda da piscina, transformando confraternização em treinamento para as Olimpíadas.

Quando eu era escolhida para fechar revezamento, ficava literalmente desesperada. Ficava quietinha e fazia o meu papel[zinho]. Se eu dissesse: “Quero voltar para casa!” levaria comigo o peso da derrota, a decepção dos pais e dos amigos. Um trabalho árduo. Portanto, era melhor entrar na piscina e vencer a porra da prova.

O pai quer que o filho se destaque. Se o pequeno cidadão estiver em perfeito estado, ou seja, não tiver nenhum problema de saúde, ele tem uma lista de tarefas pela frente.
E o modelo de sucesso é assustador. Fica claro, desde cedo, que ter parece ser mais importante que tudo. O sucesso está diretamente relacionado aos bens conquistados. Aos carros e cargos. Famílias e fardos. Bolsas e sapatos, carrinhos e helicópteros. Não sou educadora. Sou uma observadora.
A gincana é barra pesada. Tudo com data e hora marcada.
Tropa de elite.

Só torço para não ver crianças tristes e frustradas, carregando uma mochila que não é delas. Que sejam felizes com ou sem medalhas. Que possam mostrar pro mundo – e para os pais – que o conceito de sucesso é complexo.

Uns serão artistas e outros talvez vivam como turistas. Uns vão deixar o cabelo crescer e outros estarão sempre vestindo a mesma camiseta polo do pai. Alguns serão médicos ou advogados. Outros serão cantores de churrascaria, pastores evangélicos, veterinários, cientistas visionários, acionistas da Coca-Cola ou psicanalistas.

O que importa é que se sintam amados e sejam felizes, dentro e fora do possível.

I phode

O uso excessivo de celulares pode causar problemas de saúde e complicações na vida social. Pedagogos, psicólogos, oftalmologistas, psiquiatras e papagaios vivem divulgando o mal que o smartphone pode causar.
Centenas de pais e mães_ desesperados_ trocam informações.

O que fazer? É o papo de “eu não posso isolá-lo” da realidade versus eu quero que ele pratique 34 esportes.
O smartphone não deixa de ser uma tremenda babá, mas, não podemos dizer que uma criança pega um smartphone sozinha, descobre a senha e entra no cassino.
Poucos são os pais que sabem lidar com essa geração que fica hipnotizada quando está de cara pro celular do papai ou da mamãe.
A grande maioria alega que não sabe o que fazer. Alguns estabelecem horários. Outros, dizem uma coisa e fazem outra, o que faz com que as crianças percebam a dificuldade dos pais em estabelecer limites.
Um dia pode. No outro, não.

Esse assunto é chato e ótimo de se levantar numa rodinha de pai e mãe.
Quando mamãe está almoçando com uma amiga, o smartphone vira uma babá. Porque mamãe precisa conversar e relaxar e _ em função da ausência de tempo e paciência _ ela se faz presente _ está ao lado da cria _ porém ausente.
A criança fica hipnotizada por um tempo, a mãe descansa, almoça em paz e _depois_ ela tira o retângulo da criança, porque precisa responder 257 mensagens de WhatsApp.

O que a criança mais ouve é: peraí, filho. Porque agora é a vez da mamãe ou do papai.
De um lado, os pais que se descabelam quando veem seus filhos hipnotizados, já que eles têm consciência de que aquilo pode trazer consequências num futuro próximo . Do outro, os que entregam os pontos e apresentam Ipads para crianças de três anos de idade.

Estilo: _ Já que ele vai usar a droga, deixa eu comprar de primeira, honey.
Em restaurantes, é comum ver crianças hipnotizadas por Ipads ou smartphones. E aquilo produz um som desagradável. Não é som. É barulho.
E os pais relaxados, enchendo a cara de vinho.
E a criança vai ficando cinza. Abre mão de qualquer coisa para ficar ali, em estado de graça, jogando com amigos [ competição ] ou assistindo qualquer vídeo no youtube.

O problema não é a geração deles. É a nossa.
A maioria dos pais trabalha e, quando estão com os crianças, por culpa [ acho eu ], acabam deixando que eles tomem todas as decisões. Acontece que eles são crianças e, até onde eu sei, precisam de limites. Não faço ideia do que está certo ou errado. Só observo.
Esse tipo de desastre me desperta muita curiosidade.
Smartphone é coisa de adulto. Ponto final.
Basta imaginar que o smartphone é um copo de cachaça.
Jamais, um pai ou uma mãe deixaria uma criança de sete anos tomar uma caipirinha.
As crianças dominam os pais, escolhem os restaurantes, ou seja, definem tudo Não mais “comem o que estiver no prato”.
E o mais bizarro é que os pais têm consciência disso, mas são pais.
É natural que se enganem.
E mesmo quando fazem merda, estão tentando acertar.

E, se eu fosse mãe, acho que colocaria meus filhos nas mãos de bons psicanalistas, desde cedo. Porque autoconhecimento não tem preço.
Digo isso porque confio muito no divã e tenho amigas que pensam como eu. Os filhos são mais centrados e sabem se comunicar, coisa que a nossa geração vem desaprendendo.
Mas, a maioria prefere o judô, o balé, a capoeira, enfim, tudo que faça a criança gastar energia.
Difícil fazer um pai entender que o autoconhecimento é uma benção.
No Brasil, infelizmente, criança que frequenta um consultório é criança problema. Levam ao neuro mas não levam ao psiquiatra.
E _é difícil fazer os pais entenderem que uma terapia pode ser muito divertida.

Mas, é mais fácil assistir um documentário bombástico, que mostra crianças que sofrem de abstinência ao serem proibidas de brincar no telefone, ficar horrorizado, comentar com os amigos e não fazer nada.

#autoconhecimento

safari urbano

Existe no Rio um passeio clássico pelas favelas. As empresas que promovem os passeios utilizam jipes abertos como os que cruzam savanas africanas em safari. Os turistas ‘apreciam’ as construções, conversam sobre a arquitetura do local, interagem com os moradores, deslumbrados com a vista e encantados pelas crianças. Lógico! Os que estão ali são simpáticos e não oferecem perigo. Por isso, o turista chega perto, faz contato, consegue até tocar e não perde a oportunidade de fazer #selfies ao lado dos mulatinhos pitorescos. 
 
“Os visitantes podem ver de perto o modo de vida e uma cultura diversificada. Nós mostramos a cultura e o desenvolvimento sustentável de uma comunidade”, diz o guia.
Sustentável? É isso mesmo? Ou eu entendi errado? Bom, hoje em dia, qualquer coisa pode ser chamada de sustentável. Ninguém sabe o que está dizendo e ninguém sabe o que está ouvindo. 
 
Conheci um paulista, super alegre, que, na tentativa de bancar o despojado, me disse que quando vinha ao Rio [não era sua primeira vez na cidade] costumava tomar cerveja, em um boteco na Rocinha, com um tal de Seu Raimundo para ‘trocar ideias’.
 
“Sabe, pra gente que vive trancado em escritório, essa gente é um aprendizado”, disse a besta. Sacou o iPhone e começou a me mostrar algumas fotos [em preto e branco] feitas do rosto do tal Raimundo [cerca de 60 anos], sem dentes, magro e sorrindo.
Pensei: Ah! Ele se inspira em Sebastião Salgado!
 
Eu não esbocei reação. Fiquei com vergonha. Ele, empolgado, disse: “Isso é arte, Silvia. O Brasil é rico! Diversidade, miscigenação!”. Pensei: “Deus! Esse é o tipo de cara que vai para Salvador e volta com alguns berimbaus e outros adereços para decorar a casa.”
 
Mas, tudo certo. Eu estava ali, participando do passeio, justamente para entender melhor o que buscam os que decidem montar em um jipe para conhecer as favelas do Rio. De repente, uma menina de Fortaleza, grita: _ Será que vai ter tiroteio?
[ excitada e feliz, completamente alienada ]. O guia respondeu:
_ Imagine! Estamos distantes do perigo! 
Pensei: É. Estamos na área Disney da favela.
Apesar de saber que aqueles jipes não incomodam em nada os habitantes da favela, eu me senti ridícula, me bateu um sentimento de invasão de privacidade, misturado com impotência e constrangimento. É como se o pobre fosse uma atração circense. Imaginei que de uma forma ou de outra as pessoas observassem aquilo tudo e questionassem seus ou nossos valores. Sei lá. Fiquei meio constrangida. 
As pessoas se comportam como se estivessem visitando um zoo. O grupo entra em histeria coletiva e começa a fazer fotos e mais fotos. Alguns usam seus smartphones. Outros trazem equipamentos profissionais que fazem parte do figurino do personagem. Não são fotógrafos mas sentem prazer em parecer que são. Normalmente, antes da viagem, pedem para um amigo, um fotógrafo profissional, colocar aquela porra toda no automático.
 
Aliás, desde que Sebastião começou a retratar a pobreza, na época, embalado por nobres causas, o famigerado virou arte, mesmo que sem propósito. Os valores, os discursos do quanto nos distanciamos do que precisamos para ter o que queremos, o chocar-se com a desigualdade, tudo isso passa batido. Somos capitalistas desvairados, retardados. É bonito ter na parede de casa um quadro de um velho desdentado.
 
Depois desse tour, vai todo mundo para o restaurante da Roberta Sudbrack e crianças brincando ou já abraçadas pelos participantes mais emotivos [ mais alcoolizados ] vão ‘passear’ no Face, no Insta e de repente até enfeitar a parede da casa de algum bacana, fora do país ou num bairro nobre de São Paulo.
_ Vai, Marcela! Pega a Jéssica no colo que eu vou fazer uma foto linda!, diz o marido de Marcela.
_ Com ou sem máscara?