maria filó

Saio de casa e me deparo com um morador de rua dormindo na calçada. Coloco a culpa no prefeito, no sistema ou tento me convencer de que aquilo é carma – ou karma – e que nada acontece por acaso. Nada é mais confortante que as leis do espiritismo.

Levo meu filho para uma escola particular porque finjo acreditar que a educação da geração dele é o futuro do país. Minto. Refiro-me ao futuro dele, já que ignoro a realidade das crianças que estudam em escolas públicas. Entro no meu carro [ aquela coisa espaçosa, com uma TV no painel ] e, no trânsito, quando me deparo com um ônibus, cheio de gente espremida, que vai levar mais de quatro horas para chegar em casa, grito:

_ Junior, presta atenção no que a mamãe vai dizer! Se você não estudar para ter uma boa profissão e ser alguém na vida, pode ser que você tenha que enfrentar um ônibus desse, meu filho. Olha bem. Todo mundo de pé. Ninguém tem plano de saúde. Aliás, acho que você já está maduro o suficiente para entender o que é plano de saúde e blá-blá-blá.

Junior olha, ignora e continua seu joguinho no Iphone da mamãe.

Continuando…

Ela tira o smartphone das mãos de Junior e liga para melhor amiga, que é sua massoterapeuta. _ Carla, eu não sou hipócrita e não finjo me importar com o futuro dos meninos de rua. Porém, entro em desespero se souber que uma criança do meu universo Mickey Mouse está com câncer. Me coloco no lugar da mãe da criança, sabe?

Sou uma mulher realizada. Tenho meu próprio negócio. Sou #CEO da minha #StartUp. Faço as unhas toda semana, uma escova na sexta e tento me manter em forma. Faço caridade num centro espírita que fica perto da minha casa. Doação de roupas e brinquedos.

Meu marido é VP de uma grande empreiteira. Adoramos metros quadrados vazios, decorados por um arquiteto da moda e estantes repletas de livros nunca lidos. Recebemos amigos e conversamos sobre nossos filhos, sobre políticos corruptos e até sobre esses filósofos modernos que falam palavrões. Faço parte de 234 grupos do WhatsApp.

Quarta-feira é dia de eu encontrar minhas amigas. Depois de dois ou três chopes, usando a hashtag #mereço, disparamos imagens com sorrisos montados em redes sociais.

Sou tão original quanto um lago de carpas que decora a recepção de um prédio comercial.

_ Carla?

Ligação caiu. Acabou o monólogo.

alguém na vida

_ Em que posso te ajudar?
_ Eu quero ser alguém na vida.
_ Você já é alguém na vida. Você tem nome e sobrenome. Suponho que tenha uma profissão, uma família, CPF e título de eleitor. Tem endereço, IPTU, um smartphone, uma TV_ de pelo menos 60 polegadas _ e um cachorro, é óbvio.

_ Sim, tenho. O que eu não tenho são metas e objetivos.  Não faço a menor idéia do que estarei fazendo nos próximos cinco anos. Não tenho grandes ambições e não me sinto deprimido por isso. Gostaria que você me ensinasse a andar com pressa, como as pessoas de sucesso fazem nos filmes de Hollywood, segurando um copo descartável_ com café Starbucks_ falando com três pessoas ao mesmo tempo e – com fone de ouvido – do telemóvel, que está no bolso.

_ É simples. O café você já sabe onde comprar. A partir de hoje, é sua marca preferida. A pressa é sinônimo de ocupação, produtividade e sucesso. Os medíocres veneram a correria do dia a dia. Para ser alguém na vida você não deve pensar muito. Tenha dívidas. Faça workshops idiotas. Assista palestras. Desenvolva uma súbita paixão por fotografia, por orquídeas ou torne-se um Sommelier. Tenha uma conta no Linkedin e se faça presente. Tenha followers. Torne-se um Top Voice. Basta dar dicas dizendo que as pessoas devem produzir ao menos um post por dia #engajamento. Utilize vídeos de superação, enfim, escolha marcas e fale sobre elas. Escolha pessoas e fale sobre elas.

Fora isso, compre tudo em 12 vezes sem juros e tenha mais de um cartão de crédito. É importante que você sinta muito medo do fracasso. Lembre-se disso. O medo do fracasso é a mola propulsora da sociedade em que vivemos.

_ Você é casado? _ Não.
Case-se com uma mulher que tenha inglês fluente somente no curriculum vitae. Uma pequena empreendedora. CEO do próprio negócio. Uma ameba que se considere uma gestora.
Carregue seu corpo para happy hours e diga que sempre teve tesão na Galisteu ou na Bela Gil.
Seja óbvio. Não questione regras. Procure sempre estar por dentro das notícias. Papos superficiais são imprescindíveis.

_ E as redes sociais? A conta no Linkedin basta?

_ Não. Participe de todas. É preciso que você faça com que as pessoas lembrem que você existe. Use hashtags. Tenha lista no Spotify. Está super na moda. Peça ajuda I. Faça uma lista de músicas impecável. Hoje, tudo gira em torno de seguir e ser seguido. Como no Linkedin. Followers. Bom, vou te dar um moleza. Pode descartar o Facebook. Mas tem que ter  conta no Instagram. Peça ajuda II.

_ O que são hashtags?
_ Pergunte ao Caetano Veloso. Outra coisa: Se você registrar um “absurdo”, como alguém estacionando o carro numa vaga exclusiva para deficientes, fotografe e publique nas redes. Mostre-se indignado. As pessoas acreditam que estamos vivendo em Viena e que o motorista infrator é um dos nossos maiores problemas.

_ Para ser alguém na vida eu preciso viajar?
_ Infelizmente, sim. Sempre para fora do Brasil. O ideal é que você conheça ou diga que sonha em conhecer Paris ou Nova York. Diga que você quer ver gente bonita, respirar novos ares e fazer algumas compras. Fernando Pessoa detestava. Mas você não é Fernando Pessoa. Viajar é preciso. E registrar os locais visitados no Insta é mais importante ainda.

_ É preciso ter metas e fazer planos!
_ Ao menos para os próximos dois anos. Diga que você está pensando em largar seu emprego e criar um pet spa ou algo assim. “Estou prospectando”.

_ Para ser alguém na vida eu preciso ter muitos amigos?

_ Não, é preciso ter inimigos. Dá mais ibope.

Ah! Outra coisa: Declare-se judeu. Somos intelectualmente superiores.

 

Opção II

_ Para ser alguém na vida eu preciso ter amigos?
_ Sim. É preciso ter amigos e acreditar que o Brasil é o país do futuro. É preciso ser otimista.

Se quiser se divertir, convide seus amigos para tomar um vinho, coloque-os dentro da sua casa e proponha um debate sobre eutanásia. Uh! Na lista de convidados_ por favor_ ao menos um amigo ateu e um kardecista.

de smart não tenho nada

Em algum momento você não tem escapatória. Os problemas com a telefonia móvel já não podem mais ser resolvidos pela central de atendimento e você vai encarar a loja mais próxima da sua operadora. Você tenta minimizar o desconforto e se prepara para chegar antes dos outros. Fica na porta de um shopping, junto com os empregados, esperando o segurança abrir as portas do inferno e liberar a entrada da manada.

A telefonia móvel – o lado negro da força – escravizou a humanidade. Independente da classe social, da raça, da religião ou da profissão. Essa multidão de retângulos veio para ficar e não tem manual de etiqueta. Perceba que as pessoas insistem em mostrar vídeos ou fotos. Seja o primeiro banho do bebê, um trecho da festa da tia Odete ou piadas da Internet. Não perguntam se você está diposto a assistir. Metem o retângulo na sua cara e esperam por comentários. Os mais educados não deixam o aparelho exposto, num almoço. A grande maioria faz o oposto. Não consegue dar um passo sem registrar os fatos. São reality shows personalizados.

Não espere um atendimento diferenciado. Você faz parte de uma massa que está emburrecendo a cada dia que passa. Divirta-se. Você e todos os que estão ali, com uma senha na mão, fazem parte da mesma tribo e estão prontos para encarar um daqueles voos noturnos da Gol, com 36 escalas. Você é só mais um cidadão comum, idiota, classe média, adorador do Whatsapp e de milhares de aplicativos.

Na mesa ao lado uma senhora revestida de acessórios dourados e com um perfume forte explica para o atendente, aos berros, que o marido teve um AVC e que ela quer cancelar a conta. O atendente, treinado para não deixar ninguém sair de lá feliz, diz: Se ele é o titular da conta, senhora, só ele pode “estar efetuando o cancelamento da mesma”. A senhora perde a linha e diz que vai colocar a operadora na justiça.

Do outro lado, um cara com os calcanhares de fora e com três aparelhos em punho, discute as vantagens que cada operadora oferece. Existe uma tribo que não se contenta com um telefone. Eles têm vários. Pelo que entendo, parece que sai mais barato. São eles os que perguntam qual a sua operadora antes de perguntar o número do telefone. Eu faço a linha simpática. Converso com o atendente, como se eu estivesse realmente interessada na vida dele, comento sobre a quantidade de pessoas estressadas que eles têm que aturar durante a jornada de trabalho, faço o plano que o cara me sugerir, assino o documento que vai me deixar presa ao plano por pelo menos um ano, pego o telefone rosa flamingos de Miami que a operadora me deu de presente – porque era o único que tinha – e saio. Uma perfeita idiota.

_ A senhora tem certeza que não quer o 7, 8, 9?

_ Não. Esse ultrapassado está ótimo. É vintage.

Olho pro aparelho criado por Mr.Jobs e penso: Parabéns, Steve. Produto nobre. Sonho de todo pobre.

_ A senhora quer capa? _ De jeito nenhum. Acho capas o ó.

_ E película protetora? _ Jamais.

Sem saber usar e sem ter o menor interesse nas facilidades que trazem os aplicativos, aqui estou eu, com um Iphone na mão. Em algum momento, alguém me convenceu de que este aparelho mudaria minha vida.

E eu caí no conto. Pronto!

parabéns para você

É só uma festa de aniversário de uma criança de dois anos, diria minha cunhada, especialista em adestrar inquietos. Chego, sempre sem o presente, e cumprimento todas as pessoas educadamente.

As crianças mais velhas brincam e os animadores tentam dar conta delas e dos bebês, normalmente cercados por uma roda de capoeira formada pelas babás, vestidas de branco. Aliás, se tem uma coisa que me deixa muito constrangida é animador de festa infantil e babá vestida de branco. Aquela alegria exagerada me deixa dura. Já me escondi muito em banheiro de festa naquele momento constrangedor em que eles pedem a participação dos adultos em alguma das brincadeiras.

Chegar sem criança, sem presente e sem alguém [leia-se um marido ou namorado] já me torna minoria naquele espaço, onde a maioria tem mais de três pessoas nos porta-retratos. Onde a maternidade é considerada uma benção e uma cruz. “Olha, ser mãe foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. É sublime. Um amor indescritível! Mas dá um trabalho!”. Pais e mães trocam informações, falam sobre o comportamento das crianças e blá-blá-blá.

Voltando à festa: mini hambúrguer, mini cachorro-quente, mini coxinha, pipoca em mini saquinhos, batatas fritas em mini saquinhos, uma mini loucura. As crianças brincam e os adultos devoram todos os mini. A alimentação saudável vai pro brejo. E o serviço do pessoal do bufê não para. São pagos por hora e precisam se livrar – servir – todos os minis durante o tempo previamente acertado com a mãe, dona da festa. A mãe, normalmente, é uma pessoa que perdeu a noção do ridículo e acredita que uma criança de dois anos tem consciência de que está fazendo aniversário.

_ Eu queria fazer uma reunião simples. Não queria deixar passar em branco, sabe? Mas, sabe como é. A gente começa a fazer a lista e acaba incluindo a família toda, os amiguinhos da creche, e o que era para ser uma festinha acaba virando um festão. Aliás, você gostou da decoração?

_ Gostei. Galinha Pintadinha. Super original. Mas o importante mesmo é que ele está aproveitando, não é mesmo?

Pronto! Ganhei pontos. Como já disse, toda mãe tem dificuldade em entender que uma criança de dois anos aproveita qualquer festa. Ela não está se divertindo porque a festa é dela. Ela está apenas se divertindo.

O presente, sinceramente, me parece ofensivo. Uma criança ganhar cerca de 50 brinquedos num só dia é uma tremenda falta de educação, em todos os sentidos. Algumas coisas, eu engulo. Outras, não.

Colocam as crianças em escolinhas construtivistas e, em casa, o exemplo é justamente o oposto. Um consumismo assustador, uma necessidade de preencher vazios internos com coisas. A desvalorização do simples. Desperdiça-se tudo, inclusive o que não tem preço: tempo.

Os pais se sentem culpados pela ausência e compram o “vale-perdão” em lojas de brinquedos. A essa altura do campeonato, o conceito que a escola diz que prega já foi para a casa do cacete. E, eu também. Como eu não tenho filhos, não abro a boca, porque a resposta é sempre a mesma: “se você fosse mãe, você entenderia”.

_Tem cerveja? – perguntei ao garçom. – Tem. Já trago para a senhora.

_Olha, traz quente e no copo de plástico, por favor! Falta muito pro parabéns? Eu quero levar a lembrancinha sustentável, saquinho com sementes, o vaso e o pequeno regador!

maria da penha

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir talvez tenham sido o casal mais influente do século 20. Ele, um dos maiores representantes do pensamento existencialista na França. Ela dispensa comentários. Os dois nunca se casaram, mas juraram devoção mútua um ao outro com total liberdade, numa tentativa de derrubar a hipocrisia sufocante da monogamia. E, também não tiveram filhos. Bom, essa ruptura de valores não passou nem perto da terra de Pedro Alvares Cabral.

A mulher brasileira foi criada para casar e fazer bebês. É cultural. Falo de forma abrangente. Do país como um todo e não das que conseguiram escapar desse corredor polonês. Até hoje, os filmes nacionais que estouram as bilheterias são filmes de mulheres desesperadas, que caçam um maridos, vide “Os Homens são de Marte e é Pra Lá que eu Vou”, de Monica Martelli.

A protagonista passa o filme inteiro dizendo que não quer ser uma solteirona! Porém, ela tem seu próprio negócio _ que é um sucesso _ e é uma mulher independente e belíssima. É patético. Segue a linha Sex and The City. Independentes e carentes.

E, já que a maioria da população está acima do peso, os politicamente corretos, já pensando nesse público, fizeram uma versão de quatro amigas gordinhas que segue o mesmo roteiro. São gordas felizes, com uma autoestima muito bem trabalhada. Todas bem mais felizes que Monica Martelli. E nenhuma delas leva foras. Elas dão foras. Aquele exagero bem “bacana”. Porque se a gorda leva um fora, é preconceito. É mais ou menos como uma anã que protagonizava uma novela da Globo, era feia pra cacete, mas era a mais disputada entre os galãs.

Assim como Sex an The City, esses dois filmes são filmes de terror, porém, classificados como comédia.

O fato é que a mulher ainda coloca o homem num pedestal e não consegue admitir isso. Elas podem casar, dar cria e achar que feminismo é dividir as contas com os maridos, saber trocar o pneu do carro e tomar espumantes com as amigas, uma vez por semana.

Pode ser considerado um feminismo mirim. É aceitável. O que não é aceitável é essa mulherada confundir feminismo com lei Maria da Penha e querer cobrar isso da Camille de Paglia, que se assistisse uma das “obras” citadas acima, deixaria a sala de cinema no meio do filme.

A violência doméstica é outra coisa. São 50 tons de cacete pra todo lado.
O feminismo trata de outro tipo de igualdade. Tudo fez parte de uma história que vem sendo reconstruída. A igualdade de direitos está tornando a mulher mais livre. Com isso, teoricamente, ela tem como se libertar do casamento e não apanhar mais.
Só que neste caso, tem cachaça, tem cangaço, tem ciúme, tem peixeira. Cabra macho não gosta de ver a mulher se virando sozinha e dando umas trepadas [ imaginárias ou não ] com o vizinho. Aí, o couro come, as ‘criança grita’, o bairro inteiro fica sabendo. A moça fica mal falada. É novela de época. E o pessoal da ONG que se cuide.

PS: mulher que não quer ouvir um fiu-fiu não é mais mulher.
E, ela não quer ouvir fui-fiu quando passa numa obra. Toda essa revolta é seletiva. O fiu-fiu vindo de alguém que ela considera interessante deixa ela toda saltitante. Olha o Bradley Cooper ou o Cauã Raymond desbancando todo esse papo do eu não sou mulher de fui-fiu.

Enquanto isso, Simone de Beauvoir se contorce em seu túmulo e pensa: O que é que que essa gente deixou de entender, Jean? No terceiro mundo, complicou, hein?