sonho suburbano

A pousada é a versão anos 90 de um sonho que assombra desde sempre o habitante da grande cidade’. Li isso numa matéria da revista Trip, escrita por Contardo Calligaris. Houve outras versões nos últimos 50 anos – período em que muitas cidades pacatas se tornaram metrópoles. Na década de 50 [mais tarde no Brasil], explodiu o sonho suburbano: passo o dia no inferno da avenida Paulista, mas, à noite, volto para a Granja Viana. Ou seja, vivo parte do meu tempo sofrendo e outra parte me recompensando pelo sofrimento.

Nos anos 60 e 70, a contracultura produziu sonhos mais radicais. Houve quem se perdesse na Índia ou no Nepal. E houve os casais e as pequenas comunidades que voltaram à terra para criar cabras, fabricar bijuteria e etc. Se desvencilhar do ‘sistema’ não é tarefa fácil. O capitalismo selvagem parece água morna. Aquela coisa que não te causa conforto nem desespero. Uma espécie de anestésico.

A pousada é o sonho síntese entre o subúrbio e a maloca hippie. Ato de rebeldia e ao mesmo tempo capitulação. Caímos fora, mas fazemos disso um negócio. E nada de isolamento! Afinal, ver gente é essencial. Aliás, essa coisa de ver gente também me parece muito divertida. Ora, o sujeito não suporta esbarrar em seus semelhantes e quer ouvir o som dos passarinhos. Ora, não se atura e sente necessidade de ter contato com o próximo.

Para isso servem os hóspedes: além de trazerem vestígios da cidade, invejam os donos da pousada, admiram a coragem e ficam horas falando sobre o quão caótica é a vida na cidade grande. Violência é sempre o assunto preferido. Coisas da natureza humana.

patinhos feios

Qualquer pai ou mãe negaria tal fato. Mas há pesquisa indicando que tratamos pior dos nossos filhos quando eles são classificados como feios. Sempre acreditei que acontecesse o inverso. Mas, cientistas canadenses garantem que não. Os pais cuidam mesmo é dos bonitinhos. São como jóias raras ou cartões de visita.

A especulação é que a negligência em relação aos filhos feios pode estar ligada a algum instinto de evolução da espécie. Crianças mais bonitas representam uma melhor herança genética e, portanto, recebem mais cuidados. Como acontece com outros animais, que fazem a seleção de sua prole para garantir que a preservação se dará através dos bons e melhores, os mais fortes, os mais saudáveis, os mais bonitos.

O estudo me parece bem bizarro e foi feito em universo limitado. Pesquisadores da Universidade de Alberta observaram o relacionamento entre pais e filhos em “expedições” familiares ao supermercado, por exemplo. O comportamento paterno e materno foi minuciosamente observado – se os pais colocavam o cinto de segurança nos filhos na cadeira do carrinho de compras, se a criança se envolvia em atividades potencialmente perigosas e quanto tempo passava circulando pelos corredores, ou seja, longe da vista dos pais. Também classificaram a beleza física de cada criança numa escala de 1 a 10 pontos.

O uso de cinto de segurança crescia de acordo com a escala de beleza do bebê e de acordo com o responsável presente. Mãe é mãe. E ela tende a amarrar mais seus filhotes no carrinho. Incluindo os feios. Quando o responsável era o pai, só os mais bonitinhos estavam afivelados e livres da possibilidade de estragar o narizinho perfeito numa possível queda. Além de não usarem o cinto de segurança dos carrinhos, as crianças feias acompanhadas pelos pais também tinham o direito de se afastar da vista deles mais livremente. Parece piada, mas não é. De acordo com os pesquisadores, que foram quase crucificados quando resolveram revelar os resultados da tal pesquisa, o ser humano não faz isso de propósito. Parte do inconsciente selecionar e proteger o belo. E, se pararmos para pensar, os canadenses não estão tão loucos. Basta checar o que buscam as mulheres que optam por produções independentes quando chegam aos bancos de sêmen. Basta observar a quantidade de brasileiros que corre pro sul, em busca de exemplares branquinhos e de olhos azuis, quando decide adotar um bebê. Angelina Jolie, que resolveu colecionar raças distintas, é uma exceção. Não podemos encaixá-la aqui.

O fato é que o feio assusta mesmo. Causa desconforto. Fazemos seleção de atributos físicos o tempo todo. Fomos criados para isso. Desde muito pequenos, o mundo vai nos ensinando a diferença entre o bonito e o feio, o certo e o errado e por aí vai. O ser humano é cruel e como tem medo do inferno e da punição divina, tenta esconder seus instintos mais primitivos.

Duro é imaginar que possamos fazer isto com crianças. Não como exceção, mas como regra. É mais um indicador de que não estamos tão distantes assim dos animais na cadeia evolutiva. E que destratar um filho ou considerá-lo “da pior espécie” pode ser genético. É triste, mas é verdade.